O declínio na participação activa dos jornalistas nas suas estruturas colectivas não é um fenómeno isolado, mas sim o reflexo de uma transformação profunda no ecossistema mediático.

No espaço digital do Clube, impõe-se uma reflexão urgente e desapaixonada sobre a crise que atravessa o associativismo no sector e, até, o sindicalismo da classe, em quebra estrutural, pese embora uma inversão de tendência e recuperação ligeira em 2024, em linha com o agravamento da precarização do emprego.

Estas organizações debatem-se hoje com uma visível perda de influência, dificuldades de mobilização e um distanciamento crescente das novas gerações de jornalistas, num cenário onde a instabilidade e a fragmentação laboral parecem ditar as regras do jogo.

Esta crise de participação resulta, em grande medida, das novas dinâmicas de trabalho impostas pela era digital e das próprias empresas de media.

O jornalista tradicional, integrado numa redacção física e com um contrato de trabalho estável, está a dar lugar a um profissional multifacetado, muitas vezes a recibos verdes, em regime de teletrabalho ou a colaborar em múltiplos projectos em simultâneo.

Esta atomização do trabalho dificulta a criação de laços de solidariedade e de uma identidade de grupo forte. Quando a sobrevivência económica imediata se torna a prioridade e as redacções ficam mais vazias, o tempo e a energia para a intervenção associativa ou sindical escasseiam.

Para alterar esta tendência, é fundamental que as associações repensem a sua proposta de valor e a sua forma de actuação.

Não se trata de abandonar os princípios fundamentais da defesa da liberdade de expressão, da deontologia e dos direitos laborais, mas sim de encontrar novas linguagens e ferramentas para os operacionalizar.

O associativismo do futuro terá de ser mais ágil, focado na formação contínua para os desafios da inteligência artificial, no apoio jurídico personalizado para trabalhadores independentes e na criação de redes de mentoria que acolham quem agora chega à profissão.

É preciso demonstrar aos jornalistas mais jovens que a acção colectiva continua a ser o instrumento mais eficaz para garantir a independência do jornalismo perante os novos poderes económicos.

O debate que se recomenda não pretende ser um obituário das nossas instituições, mas antes um caderno de encargos para a sua reinvenção.

O jornalismo de qualidade, rigoroso e livre precisa de jornalistas protegidos, valorizados e unidos. Sem estruturas fortes, a profissão fica mais vulnerável às pressões externas e à degradação das condições de trabalho.

Cabe a cada um de nós participar activamente nesse debate, trazendo ideias novas e o compromisso para reconstruir um associativismo renovado e melhor, à altura dos desafios do nosso tempo.

A Direcção