A evolução recente do sistema mediático tem vindo a esbater as fronteiras entre informação e entretenimento, num fenómeno conhecido como infoentretenimento. Num artigo de opinião do jornalista Milagros Pérez Oliva, publicado nos Cuadernos de Periodistas da Asociación de Periodistas de Madrid, com a qual o CPI mantém um acordo de parceria, sustenta-se que esta tendência representa uma “mutação dos géneros jornalísticos”, com impactos directos na qualidade da informação e no debate público. 

O texto recorda que o fenómeno ganhou expressão inicial na televisão, sobretudo após a liberalização do sector e o aparecimento dos canais privados. A expectativa de que a concorrência elevasse a qualidade do conteúdo não se confirmou. Pelo contrário, “a competição por telespectadores levou ao surgimento de fenómenos como a TV de baixa qualidade e a uma mudança em direcção ao entretenimento como fórmula para atrair público”. 

Este modelo rapidamente extravasou para outras plataformas. À medida que os meios de comunicação se tornaram multimédia e passaram a depender fortemente de audiências para a sua viabilidade económica, “o infoentretenimento tornou-se um fenómeno disseminado e em constante expansão”. A lógica de captação de atenção alterou os critérios editoriais, favorecendo conteúdos de maior impacto emocional. 

De acordo com o artigo, esta tendência tem um duplo efeito: “por um lado, faz com que o chocante tenha precedência sobre o importante; por outro, faz com que todos os assuntos […] tendam a ser apresentados sob a perspectiva mais espectacular, problemática ou conflituosa”. O sensacionalismo, a emoção e o escândalo impulsionam formatos que amplificam a controvérsia e a polarização. 

A pressão por audiências é apontada como um factor central. Num contexto de sobrecarga informativa, “o drama, a intriga, o escândalo ou o impacto emocional […] têm uma maior capacidade de atrair a atenção do que a informação puramente objectiva e racional”. Mesmo os órgãos de comunicação mais rigorosos enfrentam dificuldades em resistir a esta lógica. 

Contudo, as implicações vão além da simples escolha de temas. O artigo alerta que a hibridização entre realidade e ficção, muitas vezes apresentada sob a forma de investigação jornalística, levanta sérias questões éticas. Programas que recorrem a reconstituições ou técnicas narrativas ficcionais, por exemplo em crimes mediáticos, podem conferir ao espectador “uma credibilidade adicional”, mesmo quando “o produto final contém mais ficção do que realidade”. 

As consequências desta deriva são descritas como “polarização, ‘sentimentalização’ da política e distorção e empobrecimento do debate público”. Ao simplificar a realidade, o infoentretenimento pode levar os cidadãos a acreditarem que estão bem informados, quando na verdade recebem versões parciais ou distorcidas dos factos. 

O artigo sublinha ainda o risco de erosão da confiança nos media. Práticas como a exploração emocional, a invasão da privacidade ou a mercantilização da vida privada “acabam por minar a credibilidade dos meios de comunicação social no seu todo”, explica o jornalista. 

Perante este cenário, defende-se um regresso aos princípios fundamentais do jornalismo. O texto cita o código deontológico da Federação das Associações de Jornalistas de Espanha, segundo o qual “o primeiro compromisso ético do jornalista é o respeito pela verdade”. Acrescenta ainda que os profissionais devem reportar apenas factos verificados e evitar “informações falsas, enganosas ou distorcidas”. 

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