Pacheco Pereira a pensar sobre jornalismo: umas notas
A propósito deste artigo de José Pacheco Pereira:
O Correio da Manhã (CM) é muito lido pelos que não lêem as notícias na Internet. Para muitos desses, se o CM não tivesse a distribuição estupenda que tem, não haveria forma de terem acesso a notícias a não ser pelas tevês (nessa matéria quase sempre atrasadas), havendo no entanto cidadãos portugueses que nem isso têm de forma contínua e sem constantes transtornos – basta ver os problemas que ainda não foram resolvidos desde que a televisão digital terrestre acabou com a segurança da emissão do velho serviço público analógico dos canais de sinal aberto. Sim, seria interessante seguir eventuais alterações de comportamentos de leitura de jornais acaso outros títulos decidissem assegurar uma efectiva distribuição nacional, chegando a toda a parte. Sucede que o desinvestimento em papel (e na sua distribuição, claro está) acompanha a mudança que está a remeter os mais velhos e/ou distantes das cidades para uma interioridade mais do que nunca marcada por um abandono que é praticamente total.
Fevereiro 16
Não partilho da visão altaneira referida por JPP relativamente aos tabloides. Porque apesar de não me rever nessa forma de fazer jornalismo, penso que há nesses títulos mais país que nos jornais ditos de referência. Isto é, apesar de tratados por vezes com ligeireza e quase sempre com uma forma sensacionalista, os temas que enchem as páginas do CM revelam uma maior parcela da sociedade portuguesa, realidades diferentes entre si, constituindo um bom espelho do País.
A crise dos jornais não se resolve apenas com mais notícias, embora seja tentada a concordar com JPP: os jornalistas perderam a cultura da notícia. Sei o quão importantes são as notícias para o jornalismo. Mas não resolvem tudo. É preciso seguir as notícias, não perder o fio, ir para o terreno, transformar notícias em reportagens e fazer investigação: ir atrás das notícias que alguém não quer que se publiquem, o tempo que for preciso, até se esgotarem as histórias. Sucede que para fazer tudo isso de forma continuada, com sistematização, profissionalismo e ética, é preciso não apenas dinheiro (que desde há muito deixou de haver nas redacções, hoje maioritariamente ocupadas por jornalistas precários e estagiários e constrangidas por sucessivas contenções de custos) mas também pessoas capacitadas para fazer uma gestão profissional, autónoma e séria das fontes.
Serão os jornalistas masoquistas, como afirma JPP? Acho a acusação um pouco ligeira, simplista, e sobretudo distante da realidade, que é bastante mais complexa que a mera questão dicotómica entre notícia-a-sério (confirmada pelo jornalista e minimamente explorada) e notícia-a-fingir (publicada nas redes sociais e simplesmente reproduzida pelos jornais, numa lógica de agregadores de conteúdos). Não, José Pacheco Pereira, os jornalistas não são masoquistas, antes o elo mais fraco da cadeia de poderes num jornal, cujas parangonas e outras notícias emanam as mais das vezes de decisões de administrações que nada têm que ver com jornalismo. Decisões economicistas (as que reduziram as redacções e afastaram delas as gerações de jornalistas mais experientes, amputando não apenas a memória do jornalismo mas também o conhecimento das suas melhores práticas, transmitido pelos mais velhos aos mais novos, hoje maioritariamente formados em escolas de ensinar comunicação e não jornalismo), decisões de gestão comercial e comunicacional dos títulos, decisões político-partidárias das agendas dos jornais, decisões de gestão de negócios que os jornais ajudam a realizar (ou a não realizar, consoante os interesses das corporações e empresas que os financiam). Ou seja, um conjunto de circunstâncias que muito contribuiu para transformar o jornalismo num ofício que deixou de merecer o respeito da sociedade. Nunca como hoje os jornalistas foram tão mal-tratados e desconsiderados em Portugal, fenómeno que advém também dos compromissos a que muitos se dispuseram em nome da preservação de empregos, é certo.
Acresce a tudo isto o problema da cabal transição para o jornalismo digital na era da Globalização, que ainda não se fez (com as devidas mas ainda pouco representativas excepções) e sobre o qual tenho vindo a escrever aqui.
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