“Voltar costas” à IA será condenar as redacções à irrelevância
A crescente utilização da inteligência artificial (IA) nas redacções está a gerar tensão entre jornalistas e gestores, mas também a abrir novas possibilidades para o futuro da profissão. Entre o cepticismo e a experimentação, especialistas defendem que o sector precisa de encontrar formas de integrar estas ferramentas sem comprometer a qualidade nem o controlo editorial.
A reacção inicial de muitos profissionais tem sido de rejeição. “Pergunte a um jornalista em actividade sobre a IA e é provável que ouça uma série de palavrões”, observa um texto do Columbia Journalism Review, num retrato de uma classe que encara a tecnologia com desconfiança, sobretudo entre os mais experientes.
Os conflitos tornaram-se visíveis em várias redacções. Numa discussão interna na Associated Press, citada pela Semafor, uma responsável afirmou que “a resistência é inútil”, provocando uma reacção indignada de jornalistas. Um deles criticou duramente: “o desdém e a indiferença […] pela escrita humana são insultuosos e repugnantes”, acrescentando que o jornalismo não pode ser substituído por “lixo escrito por IA”.
Apesar destas preocupações, o debate não é inédito. Ao longo da história, o jornalismo resistiu a várias inovações tecnológicas — da rádio à Internet — que acabaram por se tornar indispensáveis. O desafio actual é encarar a IA com “lucidez” e não apenas como ameaça.
Para ajudar a clarificar o papel da IA, é proposto um modelo simples, dividido em três categorias: fonte, colega e assistente.
Enquanto fonte, a IA pode ser útil para sintetizar informação, sugerir ângulos e fornecer contexto. No entanto, exige cautela: “não se pode confiar num chatbot como única fonte”, sendo necessário verificar todos os factos. Além disso, ao contrário de um humano, “não pode ser responsabilizado pelas suas escolhas e erros”.
Como colega, a IA pode funcionar como um interlocutor constante no processo de trabalho. O jornalista Mo Tamman, da Reuters, descreve a prática como uma “conversa” contínua com o chatbot, mesmo reconhecendo limitações: “não espero que esteja certa metade das vezes”. Ainda assim, este uso tem produzido resultados positivos quando bem orientado.
Já como assistente, a IA revela maior potencial operativo. Pode ajudar na elaboração de rascunhos, análise de dados, transcrições, traduções ou edição de texto. O autor admite recorrer a ferramentas como ChatGPT e Google Gemini para rever os seus próprios textos, sublinhando, porém, a importância do controlo humano: a IA ajuda, mas não substitui.
Para tarefas simples, como resultados desportivos ou relatórios financeiros, a IA pode ser eficiente: “Ela escreve, eu verifico”, refere o autor. Contudo, em trabalhos mais complexos, como investigações ou grandes reportagens, o papel humano continua insubstituível, exigindo “pensamento mais profundo” e sensibilidade narrativa.
Limitações e lições práticas
A experiência prática demonstra que a IA ainda apresenta falhas significativas, sobretudo em matérias actuais. Num exemplo relatado, o ChatGPT corrigiu erradamente uma referência a um papa inexistente, insistindo no erro mesmo após contestação.
Por outro lado, as ferramentas revelaram utilidade em aspectos formais, como estrutura, fluidez e correcção linguística, ajudando a melhorar a qualidade final dos textos.
O debate actual ecoa resistências antigas. O autor recorda a introdução do Windows nas redacções nos anos 90 ou a transição para o digital nos anos 2000, inicialmente rejeitadas por muitos jornalistas. Com o tempo, essas mudanças tornaram-se banais.
A mensagem é clara: ignorar a IA pode ter custos elevados. “Desconsiderá-la seria como ignorar a Internet na virada deste século”, alerta o autor.
Para Gina Chua, responsável pelo Tow-Knight Center for Journalism Futures, o risco é evidente: não acompanhar esta transformação pode condenar redacções à irrelevância. Não se trata apenas de uma ameaça, mas de “uma oportunidade real”.
O futuro do jornalismo dependerá, assim, da capacidade de integrar a IA de forma crítica e responsável. O caminho parece passar por uma adopção pragmática: usar a tecnologia como ferramenta sem abdicar dos princípios fundamentais da profissão.
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