Carlos Castilho, num novo artigo para o Observatório de Imprensa, com o qual o CPI mantém uma parceria, defende que a ascensão da inteligência artificial (IA) está a transformar os ecossistemas informativos. Neste novo cenário, torna-se imperativo que jornalistas e investigadores universitários estabeleçam uma “relação estrutural permanente para dar conta da complexidade crescente dos ecossistemas informativos que nos envolvem”. 

O autor observa que, com os algoritmos da IA a desempenharem um papel-chave na selecção automatizada das notícias, a velocidade, a complexidade e a intensidade da produção informativa ultrapassam a capacidade da maioria das redacções. Isto gera “uma enorme diversificação na oferta informativa de profissionais e de não profissionais”. 

Assim sendo, terá de ser feita uma “revisão profunda” nas funções desempenhadas, até agora, tanto pelos académicos como pelos jornalistas. “Ambas as partes desenvolveram posturas corporativas”, diz Castilho, referindo que a imprensa recorria à universidade para legitimar normas empresariais, enquanto os académicos procuravam-na apenas quando precisavam de visibilidade pública. 

No entanto, esta separação começa a ser insustentável com o avanço tecnológico. Segundo Castilho, o ponto de viragem deu-se no final do século passado, quando a inovação digital passou a ser liderada por investigadores e empreendedores fora da academia. A universidade perdeu espaço para empresas de tecnologia no desenvolvimento de chips, algoritmos, IA e, agora, computação quântica. 

“Este processo de integração entre teoria e prática na produção de inovações tecnológicas já está operacional no campo dos aplicativos tecnológicos, como pode ser visto pela multiplicação de informes, pesquisas e discussões publicados diariamente na internet. Se na área tecnológica a integração dá os seus primeiros passos, no campo da informação ela começa a tornar-se uma necessidade, especialmente porque a IA maximiza de forma perturbadora os efeitos da avalanche informativa deflagrada desde o final do século passado”. 

Castilho considera essencial a criação de estruturas institucionais híbridas, onde pesquisa teórica e produção jornalística sejam integradas. “É o que já está a ser feito em muitas empresas com o uso das chamadas Comunidades de Prática”, lembra, referindo-se ao conceito criado nos anos 90 pelo investigador suíço Etienne Wenger. 

Estas comunidades fomentam a inovação com base em aprendizagem colectiva, e Castilho acredita que o mesmo modelo pode ser replicado no jornalismo, com redacções e universidades a partilharem espaços e metodologias. 

IA enquanto ferramenta de marketing 

“A chamada inteligência artificial é um desdobramento do crescimento imparável no volume de dados inseridos na internet e do desenvolvimento de algoritmos mais sofisticados para procurar, seleccionar e processar os dados digitalizados em arquivos físicos ou na nuvem. É uma evolução quantitativa transformada em eficiente marketing para vender softwares como ChatGTPGeminiDeepSeekCoPilot e muitos outros. Um marketing que a imprensa comprou e ajudou a criar o mito de uma inteligência não humana”.  

O perigo reside na forma como algoritmos podem gerar desinformação quando operam sobre bases de dados erradas ou enviesadas. Castilho cita o investigador espanhol Ignacio de Gregorio, que demonstrou que a IA tenta justificar premissas falsas — como “1+1=5” — sem questionar a sua validade. “Se pedirmos que os algoritmos de IA expliquem porque 1 +1 = 5, o software tentará encontrar razões para o pedido, mas será incapaz de dizer que o pedido é equivocado”, explica. 

“Se levarmos em conta que os bancos de dados de notícias são hoje cada vez mais complexos, é humanamente impossível verificar a veracidade de cada dado processado por um algoritmo de IA. Logo, estamos diante de um problema seríssimo, cuja solução está além da capacidade dos jornalistas. Há necessidade de aplicações que reduzam a possibilidade de produção equivocada de notícias, algo que já é generalizado na comunicação pública entre políticos, governos e corporações”, considera Carlos Castilho. 

A distinção entre notícia e marketing comercial 

Um dos desafios futuros, segundo Castilho, é distinguir jornalismo de marketing corporativo ou político. Esta preocupação é “especialmente válida” quando as empresas tecnológicas usam o termo “marketing da inovação” - empresas como Apple ou Meta usam lançamentos tecnológicos como ferramentas para valorizar as suas acções em bolsa. “A dificuldade do jornalismo está em identificar quando um lançamento é realmente inovador, que beneficia os consumidores, e quando é apenas um recurso de marketing.” 

Esta distinção precisa de ser feita com o apoio de aplicações tecnológicas que filtrem dados e cruzem informação. Castilho propõe, assim, uma colaboração constante entre desenvolvedores de software ou algoritmos de triagem e jornalistas, com os primeiros a adaptarem os algoritmos aos contextos socioeconómicos definidos pela prática jornalística. 

Castilho termina o artigo ao dizer que esta “não é uma meta fácil e nem rápida de alcançar. Mas os académicos e jornalistas estão condenados, pela dinâmica digital, a aceitar a integração orgânica como uma imposição da realidade.” 

(Créditos da imagem: Unsplash)