Repetem-se os receios de o jornalismo científico estar em vias de extinção
Consumado o despedimento de 15 colaboradores depois da venda da Scientific American, a redução de equipas no The Washington Post, no The Wall Street Journal, na National Public Radio e na CBS News, reacende-se um debate antigo: estará o jornalismo científico condenado ao desaparecimento? Uma análise publicada no Nieman Lab, assinada pelos investigadores Bruce Lewenstein e Chris Mooney, compara a actual situação com um episódio semelhante ocorrido há quatro décadas.
Em 1986, quando duas das cerca de 17 revistas de divulgação científica então em circulação nos Estados Unidos deixaram de ser publicadas, a indústria falava também em "colapso da ciência", depois de um período anteriormente apelidado de "boom científico". Na época, os responsáveis das publicações falidas descreveram sentimentos de choque e a percepção de que as revistas se tinham tornado "irrelevantes".
Dados apontam para um problema real
Segundo os autores, uma análise a 29 revistas de divulgação científica de destaque criadas nos Estados Unidos desde o século XIX mostra que apenas 11 continuam activas e oito dos encerramentos ocorreram desde 2000. O estudo, ainda preliminar, foca-se apenas em publicações impressas de âmbito científico generalista, excluindo títulos especializados ou dirigidos a públicos restritos.
Entre os casos mais marcantes está a Popular Science, fundada em 1872, que chegou a ultrapassar um milhão de exemplares mensais em 2011, mas viu a sua versão impressa descontinuada em 2021 e a edição digital extinta em 2023. Também a National Geographic despediu editores em 2023 e suspendeu as vendas mensais em bancas, segundo o The Washington Post, embora continue a publicar em papel.
Uma crise que ultrapassa o jornalismo científico
Os autores sublinham que a fragilidade não é exclusiva desta área: entre 2000 e 2025, o emprego em jornais nos Estados Unidos caiu cerca de 80%, contra uma quebra de aproximadamente 65% no sector das revistas, segundo dados do Departamento de Estatísticas do Trabalho norte-americano. A migração da publicidade para o digital e a mudança nos hábitos de consumo das gerações mais jovens afectam transversalmente jornais e revistas.
Ao mesmo tempo, os autores notam que o acesso a conteúdo científico nunca foi tão amplo, graças a plataformas online, redes sociais e YouTube, com o Substack a destacar-se como espaço onde jornalistas conseguem construir públicos próprios e pagantes. Contudo, alertam, esse crescimento tende a privilegiar opiniões rápidas em detrimento do jornalismo de investigação, com o seu processo de verificação, tempo de reportagem e estrutura editorial.
Recuperando um estudo anterior de 1987, da autoria de Bruce Lewenstein, os investigadores defendem que parte da situação actual repete um padrão cíclico de "pânico moral" — uma preocupação genuína, mas por vezes exacerbada pelas próprias partes interessadas. Ainda assim, reconhecem que os dados actuais mostram sinais concretos de fragilização do sector.
Os autores concluem manter esperança de que o jornalismo científico resista à actual crise económica, política e tecnológica, defendendo a necessidade de encontrar "novos modelos intelectuais" para o sector.
(Créditos da imagem: Unsplash)