Radiodifusão pública suíça enfrenta redução do financiamento…
O Le Monde noticia que a radiodifusão pública suíça atravessa um dos períodos mais críticos da sua história recente, confrontada com cortes orçamentais severos e com uma nova iniciativa política que poderá comprometer seriamente a sua sustentabilidade a longo prazo. Em causa está uma proposta da extrema-direita para reduzir drasticamente a taxa de licenciamento que financia as estações públicas de rádio e televisão, a ser submetida a votação popular a 8 de Março de 2026.
A iniciativa surge num contexto já marcado por um programa de austeridade imposto à Corporação Suíça de Radiodifusão (SRG SSR), que opera 17 emissoras distribuídas pelas quatro regiões linguísticas do país — alemã, francesa, italiana e romanche. Desde 2018, quando uma tentativa de abolir completamente a taxa de licenciamento foi rejeitada de forma clara pelos eleitores, o Partido Popular Suíço (SVP/UDC) tem mantido uma pressão constante sobre a radiodifusão pública, acusando-a de desperdício de recursos e de enviesamento ideológico.
Apesar de ter adoptado medidas de contenção antecipadas, a SRG SSR foi novamente forçada a reduzir despesas depois de o Governo federal ter decidido baixar progressivamente a taxa anual de licenciamento de 335 para 300 francos suíços até 2029, num cenário agravado pela quebra das receitas publicitárias. As consequências tornaram-se evidentes em Novembro, quando a directora-geral, Susanne Wille, anunciou o maior plano de despedimentos de sempre no sector: até 900 postos de trabalho serão eliminados nos próximos quatro anos, o equivalente a 16% da força laboral.
O plano de reestruturação prevê uma redução de custos de 270 milhões de francos suíços até 2029, face a um orçamento actual de cerca de 1,25 mil milhões. A administração reconhece que, apesar de recorrer à rotatividade natural e às reformas, os despedimentos serão inevitáveis, afectando directamente a capacidade de produção e a diversidade da oferta.
O cenário poderá agravar-se com a iniciativa popular intitulada “200 francos é o suficiente!”, que propõe fixar esse valor como tecto máximo da taxa de licenciamento. Os defensores da proposta consideram que a SRG SSR se transformou num organismo excessivamente grande e defendem que áreas como o entretenimento e o desporto devem ser entregues ao sector privado. Argumentam ainda que a taxa é injusta numa era de fragmentação digital e declínio das audiências da televisão tradicional.
Segundo sondagens realizadas no Verão, 53% dos cidadãos manifestavam apoio à redução da taxa, embora a campanha oficial ainda não tenha começado. Paradoxalmente, apesar de ser directamente visada, a radiodifusão pública não poderá fazer campanha em sua defesa. “A nossa imparcialidade e credibilidade estão em jogo”, sublinha Pascal Crittin, director da RTS, a emissora francófona da SRG SSR, mencionado pelo Le Monde.
Um eventual voto favorável à iniciativa poderá ter impactos profundos na diversidade cultural e informativa do país. A descentralização, que permitiu dar voz às regiões linguísticas minoritárias e reforçar a coesão nacional, está entre os princípios que poderão ser postos em causa. Há receios de que parte da produção jornalística francófona seja transferida para a Suíça germanófona, enfraquecendo o equilíbrio federal que tem caracterizado o serviço público suíço.
Do lado dos proponentes, estas preocupações são rejeitadas. Thomas Matter, copresidente do comité da iniciativa e membro do SVP, sustenta que muitos cidadãos não utilizam os serviços da radiodifusão pública e são obrigados a pagar uma taxa que considera injusta, defendendo que, mesmo com um orçamento reduzido para metade, o serviço público poderia continuar a funcionar.
(Créditos da imagem: imagem retirada do site da Public Media Alliance)