Comportamento desigual dos “media” lusófonos no “ranking” dos RSF
A maioria dos países da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) registou melhorias no mais recente Índice Mundial de Liberdade de Imprensa dos Repórteres Sem Fronteiras (RSF), embora Cabo Verde e Angola tenham contrariado essa tendência ao perder posições no ranking entretanto divulgado.
Entre os países lusófonos avaliados (num universo em que São Tomé e Príncipe não foi incluído), Portugal mantém-se como o melhor classificado, ocupando o 10.º lugar a nível mundial, consolidando-se entre os países com melhores condições para o exercício do jornalismo.
Cabo Verde, tradicionalmente destacado como uma referência africana em matéria de liberdade de imprensa, surge agora na 40.ª posição, descendo dez lugares. Apesar de continuar a beneficiar de protecção constitucional à liberdade de imprensa e de um ambiente considerado relativamente favorável para os jornalistas, os RSF apontam como fragilidade estrutural o facto de os directores dos meios públicos, predominantes no panorama mediático nacional, serem nomeados directamente pelo Governo.
Angola permanece como o país da CPLP pior classificado, caindo nove posições para o 109.º lugar. Segundo os RSF, a persistência da censura e o forte controlo da informação continuam a limitar o trabalho jornalístico, mantendo obstáculos significativos à independência editorial.
Ainda no espaço lusófono africano, Guiné-Bissau e Guiné Equatorial registaram subidas face ao ano anterior, mas a organização alerta que esses progressos não significam necessariamente melhorias estruturais profundas. Em ambos os países, as autoridades continuam a exercer forte controlo sobre os meios de comunicação, sendo os jornalistas frequentemente sujeitos a intimidação, ameaças ou violência.
No caso da Guiné Equatorial, os RSF descrevem um cenário particularmente restritivo, caracterizado pela ausência de media independentes, censura oficial e marginalização de informação de interesse público nos canais estatais.
Moçambique melhorou ligeiramente, subindo duas posições para o 99.º lugar, enquanto o Brasil protagonizou uma evolução mais expressiva, passando do 63.º para o 52.º posto, reflectindo uma recuperação gradual do ambiente mediático.
Timor-Leste destacou-se como um dos melhores desempenhos entre os países lusófonos, subindo da 39.ª para a 30.ª posição, reforçando a sua imagem de democracia emergente com espaço mediático relativamente mais livre.
No contexto africano, a África do Sul mantém-se como o país mais bem posicionado do continente, no 21.º lugar, enquanto a Eritreia permanece na última posição global, em 180.º, sendo considerada o ambiente mais repressivo para jornalistas.
A nível internacional, os RSF alertam para uma deterioração histórica da liberdade de imprensa, que se encontra no ponto mais baixo dos últimos 25 anos. Entre os principais factores identificados estão a criminalização crescente do jornalismo, o autoritarismo político e a violência contra profissionais da comunicação social.
A Noruega volta a liderar o ranking mundial, mantendo-se como o único país com classificação “excelente”, seguida por Países Baixos, Estónia, Dinamarca, Suécia e Finlândia.
Entre os casos mais preocupantes do ano destaca-se o Níger, que sofreu a maior queda global, descendo 37 posições para o 120.º lugar, num reflexo da instabilidade persistente no Sahel, marcada por violência armada, golpes militares e crescente repressão informativa.
(Créditos da imagem: Repórteres Sem Fronteiras)