O jornalismo enfrenta uma nova transformação que ameaça a sua função informativa tradicional: a “betificação” da notícia. Conforme alerta Carlos Castilho no Observatório da Imprensa do Brasil, parceiro do CPI, “as bets (apostas) estão a desembarcar no jornalismo com negócios bilionários que mudarão a forma como as pessoas lidam com a notícia, funcionarão como incentivo à desinformação e serão recebidas como um providencial alívio temporário para a crise no modelo de negócios da imprensa convencional.”

O fenómeno já se manifesta nos Estados Unidos, onde redes como CNN e CNBC firmaram contratos com empresas do mercado de previsões, Kalshi e Polymarket, para permitir apostas sobre acontecimentos noticiosos. Castilho explica: “As pessoas apostam e quem acerta divide 80% do valor apostado, enquanto 20% ficam com a empresa.” Este modelo transforma a notícia numa “lotaria com poucos ganhadores e milhares de perdedores”, observa o autor. 

A base teórica deste modelo é a tese da eficiência dos mercados do Nobel Eugene Fama, segundo a qual “quem aposta o seu próprio dinheiro tem maiores incentivos a pesquisar e avaliar com mais cuidado dados, factos e eventos do que numa pesquisa de opiniões”. No entanto, Castilho sublinha que “uma aposta é geralmente baseada em informações que podem ser distorcidas pelo fenómeno da desinformação, produzindo resultados fora da realidade”. 

O autor alerta para o impacto na forma como o público consome notícias: “A notícia que até agora era vista apenas como uma ferramenta para formar opiniões e entender o mundo passa a ser também matéria-prima para apostas. Torna-se uma oportunidade para especular sobre o futuro com chances de ganhar dinheiro.” Mesmo temas complexos e pouco populares, como a escolha de um novo juiz do Supremo Tribunal Federal, poderão passar a ser lidos mais pelo interesse financeiro do que pelo interesse informativo. 

Castilho questiona ainda o efeito sobre o próprio jornalismo: “Os profissionais continuarão a produzir notícias, investigações, reportagens e comentários analíticos, mas já não saberão se o público usará este material para formar opinião ou como instrumento para ingressar no grande casino das apostas.” Segundo o autor, “apostas em resultados de eventos futuros criam sérios riscos de manipulação de informações por meio tanto do enviesamento das questões submetidas a apostas como dos resultados finais.” 

A experiência norte-americana ilustra este dilema: a CNN inseriu um quadro criado pela Kalshi junto à notícia transmitida, mostrando o tipo de aposta relacionada ao tema e a tendência dos apostadores. Castilho conclui: “É quase certo que a atenção das pessoas será mais atraída pelo comportamento dos apostadores do que pela notícia. O tradicional discurso do jornalismo, que se vê como função de utilidade pública, passará agora a dividir espaços com o facto de ele ser usado como cereja do bolo na betificação da notícia.” 

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