“Primitiva”, a nova revista em papel
Em Dezembro de 2024, Luís Octávio Costa, jornalista e contador de histórias visuais, publicou no Instagram um vídeo de uma matança tradicional do porco em Monção. Entre as vozes indignadas que reagiram ao conteúdo, destacou-se uma palavra: “primitivos”. Essa palavra tornou-se num ponto de partida. “Sou jornalista, contador de histórias reais. Não uso inteligência artificial. Procuro mostrar o mundo como ele é, com sangue, pele queimada e sofrimento, com alegria, brindes e respeito, também”, explicou então Luís Octávio, numa outra publicação. Meses depois, quando chegou o momento de nomear a nova revista, ele e a equipa perceberam que a escolha era inevitável: tinha de se chamar Primitiva.
A Primitiva nasce como uma revista em papel, dedicada a viagens, que irá procurar contar histórias do mundo. Como disse Luís Octávio Costa ao Público, é “uma revista de histórias do mundo que têm a viagem como fio condutor”, mais próxima do documentário narrativo do que do guia turístico. O primeiro número poderia muito bem incluir a polémica matança que esteve na origem do nome. Em vez disso, mostra lutas de homens em arenas de terra barrenta em Lahore, corredores que desafiam a paisagem agreste da ilha Terceira, imagens de um Iraque esquecido, a louça negra de Bisalhães, um casamento em Bengala, retratos de pais e filhos espalhados pelo planeta.
Filipe Morato Gomes, também fundador do projecto, resume a ideia: “Não temos uma reportagem geral sobre Paris ou outra cidade, e nunca teremos. Aqui procuramos ir ao particular, às vezes até ao nicho do nicho.”
Inspirada “em projectos internacionais de referência no campo das revistas independentes”, a Primitiva quer ser uma publicação premium, olhando para a escrita, a fotografia e o design como três eixos inseparáveis. “Pensámos num produto que qualquer um de nós queria comprar e não encontrava no mercado”, explicou a editora Luísa Pinto ao Público. A equipa completa-se com Rui Barbosa Batista, repórter da Lusa, e com Fábio Alves, director criativo que concebeu uma identidade gráfica fora do comum.
Quando as primeiras propostas de design surgiram, Filipe Morato Gomes confessou ter ficado “chocado”: “Letras a vermelho? Páginas ao contrário? Uma revista sem números nas páginas?” A estranheza inicial depressa deu lugar ao entendimento. “O vermelho é a cor primitiva, é a primeira cor, é rupestre. As fontes também são das primeiras que foram criadas. E depois assumimos a imperfeição como parte do projecto, quase como se tivéssemos um design incorrecto”, explicou Fábio Alves.
Luís Octávio reafirma a importância do suporte em papel: o mundo pode digitalizar-se, mas a impressão “continua a ser um lugar de resistência e de preservação”. A própria abertura do número inaugural sublinha essa convicção, com o texto de António Araújo a lembrar que “o papel é uma certeza, uma certeza com milhares de anos. No dia em que desaparecer, morreremos nós também.”
Com 220 páginas e apenas doze dedicadas à publicidade, a Primitiva quer ser um objecto intemporal, ao qual seja possível regressar sempre que se queira. “A Primitiva é para ser guardada e relida”, afirmou Luísa Pinto. Fábio Alves vai ainda mais longe: “É um produto de culto, para coleccionadores, que pode ser revisitado ao longo dos anos.”
(Créditos da imagem: Revista Primitiva)