Os arquivos dos jornais locais norte-americanos enfrentam hoje um dos períodos mais críticos da sua história, alerta o Columbia Journalism Review. Ameaçados por desastres naturais, falências, mudanças de instalações e aquisições empresariais, muitos destes acervos, em especial os fotográficos, correm o risco de desaparecer para sempre. Para arquivistas e jornalistas, o que está em causa não é apenas a preservação de documentos, mas a sobrevivência da identidade das comunidades que neles se reflectem.

O alerta ganhou força após o incêndio de Smokehouse Creek, que devastou a região do Texas Panhandle em 2024 e cercou a pequena cidade de Canadian. Enquanto reportava o avanço das chamas, Laurie Ezzell Brown, editora do Canadian Record, temeu que o incêndio destruísse o arquivo do jornal. “Não é apenas a história desta comunidade. É a história da minha família. É quem nós somos. É o que fizemos”, confessou. 

Esta situação expõe um problema muito mais amplo. Quando jornais fecham, reduzem espaços ou são vendidos, os seus arquivos — muitas vezes acumulados durante mais de um século — tornam-se vulneráveis. As fotografias, difíceis e dispendiosas de digitalizar, são as primeiras a perder-se, alertam especialistas. “Quando um arquivo é destruído, estamos a perder a identidade individual da comunidade, a voz desse grupo de pessoas nesse momento”, explica Ana Krahmer, arquivista da Universidade do Norte do Texas. 

Frank LoMonte, professor de Direito na Universidade da Geórgia, considera que “apenas uma pequena minoria dos jornais tem recursos financeiros e visão para proteger proactivamente os seus arquivos”. A sua preocupação centra-se sobretudo nas imagens nunca publicadas: “A perda para a história com a eliminação dos arquivos fotográficos é incalculável.” 

Marianne Mather, antiga fotojornalista de jornais do grupo Sun-Times, ficou surpreendida quando descobriu que praticamente nada restava das fotografias que produzira durante mais de uma década. “Não havia quase nada”, recorda. Em alguns casos, os arquivos foram simplesmente “atirados ao lixo”, contou Jim Svehla, ex-editor de fotografia do Naperville Sun

Mather demonstrou o valor histórico destes registos ao recuperar, em 2016, um negativo inédito que mostrava Bernie Sanders, então candidato à presidência, a ser detido num protesto pelos direitos civis em 1963. “Segurei-a contra a luz e disse: ‘Acho que o temos’. Foi incrível”, relatou. 

O papel das universidades 

Algumas instituições procuram salvar o conteúdo que os jornais já não conseguem preservar. A Universidade de Louisville tentou durante anos adquirir o arquivo fotográfico do Louisville Courier Journal. A relutância do grupo Gannett em doar a colecção prolongou o impasse, mas a mudança para instalações mais pequenas em 2022 levou finalmente à cedência. O arquivo inclui cerca de dez milhões de fotografias, agora em processo de digitalização. 

“Não é apenas uma janela para grandes momentos históricos”, afirmou a arquivista Cassidy Meurer. “É também uma janela para a vida quotidiana e para como as coisas eram numa época muito diferente.” 

No Texas, o Canadian Record escapou às chamas, mas o susto levou Laurie Brown a agir. Começou a transferir o arquivo do jornal para o Programa de Jornais Digitais da Universidade do Norte do Texas, que preserva títulos de todo o estado. O jornal deixou de ter edição impressa em 2023 e a própria Brown tem sustentado a versão digital com as suas poupanças pessoais. Mas, quanto aos arquivos, não tem dúvidas: “Eles estão fora daqui. E estão num lugar seguro.” 

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