Os algoritmos ajudam mas não substituem o papel do jornalista
"Os algoritmos e as ferramentas de inteligência artificial (IA) chegaram às redacções com grande potencial, mas também com grandes incertezas sobre as consequências da sua aplicação. Prometem facilitar o trabalho, e certamente que o fazem agora. São realmente úteis na procura de informação, na comparação de dados e, em geral, em tarefas de verificação e documentação. Mas também representam desafios sobre os quais precisamos de reflectir”, começa por dizer Milagros Pérez Oliva, jornalista, num artigo de opinião para os Cuadernos de Periodistas, editados pela APM - Asociación de la Prensa de Madrid - com a qual o CPI mantém uma parceria.
Como alerta o debate actual no seio do jornalismo, a introdução dos algoritmos levanta duas preocupações centrais: primeiro, a eventual substituição de jornalistas por processos automatizados de produção noticiosa; e, segundo, o risco de que as decisões editoriais passem a ser guiadas por métricas de audiência, e não por critérios jornalísticos. "Ou seja, o conhecimento das preferências do público e a capacidade de segmentar e influenciar a audiência acabam por criar um enviesamento de avaliação, uma tendência para lhes dar aquilo que querem ouvir ou ler, em vez daquilo que, com base em critérios profissionais, são considerados assuntos de interesse geral que a sociedade deveria conhecer”, explica o autor.
Os algoritmos podem ajudar a recolher, seleccionar e processar dados, enriquecendo o trabalho jornalístico, mas, como indica Milagros Pérez Oliva, “a informação é mais do que uma sucessão de dados”. A informação relevante resulta de critérios editoriais assentes na análise racional, na experiência subjectiva e na intuição reflexiva do jornalista.
A avaliação jornalística é entendida como um processo profundamente humano, que conjuga racionalidade, emoção e contexto. A IA pode imitar certos processos cognitivos e até gerar texto com fluência, mas essa imitação continua a ser limitada. Por isso, paradoxalmente, quanto mais avançadas forem as ferramentas automatizadas, mais imprescindível se torna o papel humano na supervisão e decisão editorial.
Outra questão se coloca quando estas tecnologias começam a influenciar o próprio processo editorial. Ferramentas como o Google Analytics, com IA integrada, analisam em tempo real o comportamento dos leitores: páginas visitadas, tempo de permanência, taxa de cliques. Outras plataformas, como o Chartbeat ou o Parse.ly, medem o grau de envolvimento com cada conteúdo e preveem que tipos de manchetes são mais susceptíveis de captar a atenção.
Por sua vez, sistemas como o NewsWhip, Echobox e CrowdTangle concentram-se na viralidade nas redes sociais, tentando prever tendências e maximizar o alcance das publicações.
“Os grandes veículos de comunicação utilizam diversas destas ferramentas para compreender melhor o seu público, segmentá-lo e melhorar a experiência do utilizador. No entanto, não é segredo que, se uma parcela da receita da qual depende a viabilidade do veículo for determinada pelo tamanho da audiência, existe o risco de que a informação sobre as preferências influencie o julgamento jornalístico”, diz o jornalista.
Há apenas alguns anos, foram discutidos os perigos da televisão formatada “para as audiências”. Em Espanha, por exemplo, o surgimento de múltiplos canais levou, em muitos casos, não a uma melhoria dos conteúdos, mas a uma homogeneização descendente — o domínio da chamada “televisão lixo”. Hoje, essa lógica estende-se a todos os meios: jornais, rádios, plataformas digitais, redes sociais. E as métricas, visíveis e em tempo real, pressionam redacções inteiras a optimizar o que se publica com base no que resulta — e não no que importa.
“Numa sociedade cada vez mais complexa e acelerada como a nossa, onde estamos frequentemente por detrás dos acontecimentos, é necessário um grande volume de informação verdadeira e de qualidade para que os cidadãos possam obter uma imagem precisa da realidade sobre as muitas questões sobre as quais devem tomar decisões”. Neste contexto, os algoritmos das redes sociais tendem a reforçar “bolhas de afinidade ideológica” e emocional. Como assinala o Nieman Reports do Verão de 2023, “estas ferramentas permitem ao jornalismo expandir-se, melhorar a qualidade e as rotinas de trabalho, conectar-se melhor com o público e libertar tempo da redacção para pesquisa e verificação. No entanto, a agenda jornalística deve basear-se em critérios de interesse geral, com vista ao bem comum”.
Assim, para que se faça bom jornalismo, é necessário haver “jornalistas responsáveis, com as melhores ferramentas possíveis, mas conscientes da responsabilidade que têm em mãos”.
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