As notícias, tal como são produzidas actualmente, muitas vezes não são valorizadas pelo público como tendo um papel especialmente relevante para o seu dia-a-dia, o que é um “sinal de alerta” sobre a fragilidade do futuro das organizações de media e dos profissionais do sector.

Quem o diz é Carlos Castilho, jornalista brasileiro, num artigo de reflexão no Observatório da Imprensa, com o qual o Clube Português de Imprensa mantém uma relação de parceria.

O autor reporta-se a dados que demonstram que as pessoas não estão dispostas “a meter a mão no bolso para pagar por informações jornalísticas”: quase 81% dos entrevistados num estudo em Florianópolis, “corroborado também por outras pesquisas [no Brasil] e no exterior”.

“Com um orçamento doméstico marcado pela inexistência periódica de sobras, cada vez mais as pessoas passam a tratar a notícia como algo descartável”, acrescenta o jornalista.

Além disso, com a “avalanche” de informação disponível na internet, o público adquiriu novos comportamentos de consumo de notícias, existindo alguma “falta de consciência das pessoas em geral sobre o valor da informação na era digital”.

No entanto, vivemos num tempo em que a “percepção do valor de uma notícia ou informação” é essencial “para a sobrevivência do jornalismo e da imprensa”.

A resposta para este desafio, segundo o autor, passa por repensar o paradigma da relação dos jornalistas com o público.

“Até agora, a ideia predominante é a de que a imprensa sabe do que as pessoas precisam” enquanto cidadãs e consumidoras. Contudo, “esta atitude levou as pessoas a sentirem-se inferiorizadas em relação aos jornalistas”. 

Para que a notícia volte a ser percepcionada como “um valor social” que merece ser integrado no “orçamento individual”, tal como a educação e o entretenimento, é fundamental identificar as “necessidades informativas das pessoas comuns” para “desenvolver novas estratégias de comunicação e informação”, sugere Carlos Castilho.

Porém, “este é um desafio para o qual profissionais e executivos se mostram despreparados, porque ainda vivem a cultura do distanciamento em relação à massa de leitores, ouvintes, telespectadores e utilizadores de redes sociais”.

Investigações feitas nos Estados Unidos sugerem algumas pistas para reconquistar os leitores: “é necessário identificar primeiro quais as principais fontes de informação do público que se pretende atingir. Ou seja, conhecer o ecossistema informativo local”.

A aproximação entre jornalistas e público permitirá, também, “descobrir o que o público realmente quer” e aquilo de que precisa.

Esta “revalorização da notícia em bases sociais” (e não “maioritariamente financeiras”) é  um processo “lento e complexo”, até porque “obriga os jornalistas a reverem suas normas de relacionamento com o público”.

Mas a verdade é que “a informação sintonizada com a realidade local tende a gerar credibilidade e fidelidade”, podendo, assim, o jornalismo voltar a ocupar “um papel insubstituível”.

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