Ocultar notícias é uma forma activa de moldar o discurso público
A maior parte das notícias consumidas nas redes sociais nunca é partilhada, discutida ou tornada visível. Segundo um novo estudo publicado na revista Social Media + Society, ocultar notícias é uma decisão tão intencional quanto partilhá-las.
Um artigo do Nieman Lab conta que as investigadoras Jennifer Ihm e Eun-mee Kim analisaram mais de 400 utilizadores de redes sociais, combinando inquéritos com uma avaliação textual detalhada das notícias que estes decidiam não partilhar nas suas salas de chat mais activas no KakaoTalk, a principal plataforma de mensagens da Coreia. Para além de quererem compreender o que é ocultado, o objectivo passava também pelo porquê.
As autoras defendem que ocultar notícias é uma forma activa de moldar o discurso público. As pessoas evitam partilhar certos conteúdos para gerir a forma como são vistas, para proteger a sua privacidade ou para evitar conflitos em grupos específicos. Como concluem, os utilizadores “não evitam partilhar tudo com todos. Eles ocultam estrategicamente certas histórias em diferentes redes, moldando a forma como são percebidos e gerindo a sua identidade online”.
A investigação identificou três objectivos centrais de autoapresentação que influenciam estas escolhas:
- Moldar a própria identidade — As pessoas evitam partilhar notícias que possam sugerir crenças, valores ou afiliações das quais preferem distanciar-se;
- Proteger a privacidade — Em redes com laços fracos, os utilizadores são mais cautelosos em divulgar conteúdos demasiado pessoais ou sensíveis;
- Gerir e agradar ao público — Em grupos pequenos e próximos, há maior preocupação com a harmonia e com o impacto emocional das partilhas.
O tipo de notícia também importa: conteúdos politicamente sensíveis ou altamente controversos são mais frequentemente ocultados em redes maiores, onde o risco de incompreensão ou conflito é maior.
Os resultados mostram que os utilizadores ajustam o seu comportamento ao contexto social. Em redes pequenas e coesas, ponderam cuidadosamente o impacto de cada partilha. Em redes grandes, que funcionam quase como espaços públicos, sentem que é impossível agradar a todos e, por isso, tornam-se mais selectivos.
A força dos laços desempenha igualmente um papel. Relações próximas exigem mais sensibilidade, enquanto laços fracos incentivam maior reserva.
No conjunto, o estudo mostra que os utilizadores das redes sociais são actores activos que avaliam o conteúdo, o público e o contexto social. “Avaliam activamente tanto as histórias quanto os públicos antes de decidir se amplificam ou suprimem informações. Eles navegam por relações subtis e equilibram objectivos de autopresentação com preocupações sobre impacto emocional, controversas e tamanho do público”, refere o artigo. Ao fazê-lo, os utilizadores tornam-se “guardiões” da circulação de notícias, decidindo o que entra, ou não, na esfera pública digital.
Lições para jornalistas e meios de comunicação
Os resultados trazem implicações para as organizações de notícias:
- As redes sociais não têm um público homogéneo: uma notícia pode ser amplificada numa rede e silenciosamente ocultada noutra. O modo como o conteúdo é apresentado (incluindo tom, emoção e enquadramento) pode determinar o seu destino.
- Métricas de envolvimento (engagement) captam apenas uma parte da realidade: muitas notícias são lidas atentamente sem gerar gostos, partilhas ou comentários. Para compreender o impacto real, as redacções precisam de complementar estas métricas com inquéritos, feedback directo e outras formas de auscultação do público, “obtendo conhecimento sobre quem está a ver o conteúdo e como ele está a ser interpretado ou avaliado”.
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