Carlos Castilho, num artigo publicado pelo Observatório de Imprensa do Brasil, com o qual o CPI mantém um acordo de parceria, aborda o conceito “advocacy informativa”. Primeiro que tudo, explica este termo: “É uma expressão inglesa, sem uma tradução exacta para o português, usada para caracterizar a promoção de uma ideia, projecto, acção ou decisão através da comunicação. É, mais ou menos, o que está a acontecer actualmente com os jornais, semanários, telejornais e páginas noticiosas na Internet, no caso da polémica em torno da popularidade do Presidente Lula”. 

Para o autor, a ideia da presença de isenção e objectividade nas notícias está a ser substituída por “formas diversas de militância ou advocacy informativa”. Castilho entende que este fenómeno está directamente ligado à “crescente complexidade do fluxo de informações” fornecido pela imprensa e por jornalistas independentes ao conjunto da população, não só no Brasil, mas também no resto do mundo.  

“Estamos a ser submetidos a um bombardeamento informativo que nos desorienta e nos deixa inseguros sobre onde está a ‘verdade’ no meio da avalanche de dados e versões diferentes sobre um mesmo facto”, afirma. 

Carlos Castilho destaca que a imprensa, que detinha o monopólio da produção e disseminação de notícias, foi destronada pelas plataformas digitais e redes sociais. Estas passaram a ser as principais fontes das hard news e “os jornais, revistas, telejornais e sites acabaram limitados à condição de analistas e intérpretes de hard news, situação que os levou a praticar a advocacy informativa”. 

“A grande imprensa brasileira e quase uma centena de projectos jornalísticos online deixam cada vez mais claro que praticam a militância informativa para debilitar a imagem do actual Presidente da República, visando ganhos políticos e eleitorais futuros. É uma estratégia de comunicação que usa a complexidade dos resultados de pesquisas de opinião ou de questões como o processo contra acusados de participar de actos golpistas e a situação da economia nacional para moldar a percepção da opinião pública segundo uma determinada visão do mundo”, observa Castilho. 

O autor explica como as pesquisas de opinião pública, “um caso exemplar de complexidade informativa”, podem ser distorcidas ou mal interpretadas. As variáveis que influenciam os resultados de uma pesquisa são muitas — o momento político e social em que a consulta é realizada, as perguntas feitas, o local onde são feitas as entrevistas ou a amostra de público escolhida —, mas as conclusões geralmente são simplificadas em termos binários, como "aumentou ou diminuiu", "bom ou mau", "aprovo ou desaprovo". Isto acaba por gerar interpretações distorcidas da realidade. 

“A metáfora do copo meio cheio ou meio vazio é cada vez mais representativa da realidade que vivemos. O copo é o mesmo, a água idem, a diferença está na nossa mente. Num ambiente cada vez mais caracterizado pela diversidade e complexidade dos temas em debate pelo público, é inevitável que as pessoas desenvolvam, nas suas mentes, visões do mundo diferenciadas, logo, que promovam os seus pontos de vista, praticando a advocacy informativa”.  

Castilho aponta que o problema surge quando a imprensa omite o facto de estar a promover um determinado posicionamento, tratando-o como se fosse uma verdade absoluta. E completa: “A maioria das pessoas ainda acredita que os jornais e revistas, bem como telejornais de grande audiência, são uma espécie de ‘bíblia’ da verdade. Isto faz com que elas tenham a tendência a serem influenciadas pelo que leem, ouvem ou veem na imprensa, podendo assumir visões de mundo fora da realidade em que vivem”. 

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