O jornalismo inclusivo na Áustria não é caridade ou activismo
A andererseits nasceu em 2020, quando um pequeno grupo de dez jornalistas decidiu publicar os seus primeiros artigos. Quatro anos depois, o projecto-piloto transformou-se numa das startups de media mais inovadoras da Áustria. Em entrevista à The Fix, a editora-chefe Lisa Kreutzer explicou a visão para reformular o modo como se faz jornalismo no país.
A motivação inicial foi clara: a indústria dos media permanece pouco diversificada, com as mesmas vozes a produzirem as mesmas narrativas. Para Kreutzer, esta homogeneidade compromete a essência da profissão. “Se o jornalismo deve reflectir o mundo tal como ele é, só o pode fazer se muitas vozes diferentes fizerem parte dele”, afirmou a editora-chefe.
É esta convicção que orienta o trabalho da andererseits: abrir espaço a pessoas habitualmente excluídas das redacções, sobretudo indivíduos com dificuldades de aprendizagem e outras deficiências. Só na Alemanha, cerca de dez milhões de pessoas dependem de uma “linguagem fácil de entender” para compreender assuntos complexos, mas continuam afastadas por uma cobertura tradicional repleta de jargões. “A democracia tem um problema quando o jornalismo não chega a todos”, acrescentou Kreutzer.
O projecto começou como um colectivo voluntário, mas depressa atingiu os seus limites. Em 2022, uma campanha de crowdfunding angariou 40 mil euros para formalizar a redacção, assente em três pilares: independência financeira, inclusão e condições de trabalho justas.
Em 2025, a equipa já contava com financiamento público e tinha crescido para 12 funcionários. Hoje, a redacção possui 2 600 assinantes, com o objectivo de chegar aos sete mil até 2027.
Para sustentar este modelo, a andererseits adoptou uma estrutura pioneira. Criou a primeira “empresa flexível sem fins lucrativos” (gFlexCo) da Áustria, cuja propriedade foi transferida para uma associação composta pelos próprios funcionários. O resultado é um modelo híbrido, cooperativo e partilhado.
“É uma comunidade baseada na responsabilidade”, explicou Kreutzer à The Fix. “Queríamos que as pessoas dentro da redacção – especialmente pessoas com deficiência – decidissem as grandes questões”.
Se no início o projecto tinha um tom marcadamente activista, hoje a equipa reformula essa narrativa. A diversidade, defendem, não é caridade, mas sim um critério essencial de qualidade para o jornalismo. Redacções homogéneas não conseguem contar as melhores histórias, e este argumento tem convencido alguns parceiros.
A andererseits estabeleceu colaborações com meios como o Süddeutsche Zeitung e a emissora pública alemã ZDF. Para além de ampliar o alcance da startup, estas parcerias levaram organizações tradicionais a repensar rotinas e estruturas, tornando-as mais inclusivas.
Dentro da redacção, o princípio da “autoria apoiada” guia o trabalho diário. Todos os temas são criados por equipas inclusivas compostas por jornalistas com e sem deficiência. As reuniões editoriais começam com um ritual simples: cada membro partilha o que precisa para participar plenamente. O trabalho híbrido facilita a colaboração entre cidades como Viena e Hamburgo.
O estilo editorial também se distingue. Em vez de seguir o ritmo frenético do ciclo noticioso, a equipa produz peças com profundidade, estilo de revista e explicações claras.
Para muitas pessoas com deficiência, as escolas de jornalismo continuam inacessíveis. As barreiras são estruturais: programas exclusivos, condições de trabalho precárias e prémios usados como substitutos de salários.
“Ganhámos prémios e eles ajudaram-nos", reconheceu Kreutzer. “Mas parem de prometer fama em vez de pagar salários adequados. O jornalismo deve ser tratado como a profissão responsável que é”.
Para enfrentar esta realidade, a redacção criou o seu próprio programa de formação. Não é necessária experiência prévia e todas as funções são descritas em linguagem simples. A equipa inclusiva assegura o acompanhamento de cada recém-chegado.
Um dos principais pontos de entrada é o boletim informativo de sexta-feira, escrito exclusivamente por pessoas com deficiência. Com 17 mil subscritores, tornou-se um dos produtos mais populares da andererseits e um espaço de aprendizagem progressiva: cada colaborador avança ao seu ritmo.
Até 2027, a redacção espera alcançar sete mil assinantes e garantir estabilidade financeira. Mas o objectivo maior é transformar a cultura jornalística, mostrando que o jornalismo inclusivo não é um nicho, mas uma forma mais sólida e completa de contar histórias.
Como sintetiza Kreutzer: “O jornalismo inclusivo não é caridade ou activismo – é um jornalismo melhor. Perspectivas diferentes produzem histórias melhores, e histórias melhores criam uma democracia mais saudável”.
(Créditos da imagem: imagem retirada do site da Andererseits)