A crise que atravessa o jornalismo contemporâneo tem raízes mais profundas do que a erosão dos grandes grupos de comunicação social ou o avanço da inteligência artificial. Para o jornalista e investigador Carlos Castilho, a verdadeira emergência da profissão nasce da incapacidade do sector para “identificar e interpretar o que as pessoas pensam, desejam e necessitam”, afirma num artigo para o Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual o CPI mantém uma parceria. 

Segundo Castilho, este é o ponto que mantém as redacções presas a um modelo de produção noticiosa que já não responde a um público radicalmente transformado pela era digital. “O grande fracasso do jornalismo actual”, diz, reside na resistência em “romper com o modelo comercial de produzir notícias e em assumir que o desafio digital não está na geração de informações, mas na forma como elas serão assimiladas pelas pessoas.” 

O debate em torno da inteligência artificial tornou-se incontornável para a compreensão do “dilema jornalístico contemporâneo”. Castilho recorda que a tecnologia progride a um ritmo estonteante, mas que a sua adopção só será bem-sucedida se for orientada por necessidades humanas reais. “O sucesso destas inovações vai depender da identificação de quais delas vão atender às necessidades e desejos das pessoas”, explica.

Citando o investigador polaco Mateusz Banaszak, o jornalista lembra que os algoritmos assumirão cada vez mais as tarefas mecânicas, cabendo aos humanos o papel crucial de atribuir valor e significado ao que é produzido. "À medida que cresce o número de influenciadores e produtores independentes de dados, factos e eventos, a oferta noticiosa tende a superar largamente a capacidade do jornalismo e da imprensa de processar a avalanche informativa. Caberá então aos profissionais darem sentido a cada notícia conforme a audiência, o contexto social e as necessidades dos diferentes segmentos do público”, sublinha Castilho. 

A falácia tecnológica 

Um estudo do Massachusetts Institute of Technology (MIT) revela que 95% dos investimentos actuais em inteligência artificial não produzem os resultados esperados. Castilho considera que o fracasso resulta do desajuste entre as expectativas das empresas tecnológicas e as necessidades concretas das pessoas. “A principal explicação é o desajuste entre o que os programadores e investidores desejam e o que as pessoas querem ou precisam”, afirma. 

O mesmo erro, sustenta, alastra pelo jornalismo, que continua preso a agendas e modelos de negócios ultrapassados. “A imprensa acabou prisioneira de uma polarização ideológica alimentada por interesses económicos, imobilizada pelo medo de apostar no novo e pressionada pela perda de credibilidade”, alerta Castilho. 

Superar algoritmos e concorrer com eles não é o caminho. “Os profissionais nunca conseguirão superar a inteligência artificial na produção de dados e factos”, reconhece Castilho. A essência da profissão está na mediação entre a notícia bruta e a vida das comunidades. “A especialidade do jornalismo é a interface entre a notícia bruta e a realidade de indivíduos e comunidades”, defende. 

Em vez de se concentrar em tarefas mecânicas, como recolher dados, redigir textos, publicar conteúdos, o jornalista terá de compreender como cada notícia contribui para o conhecimento colectivo, integrando-se no “capital cognitivo de indivíduos e comunidades”. 

As funções do jornalista do futuro 

A investigação de Jennifer Brandel, empreendedora e fundadora da plataforma Hearken, reforça esta transformação. O trabalho de Brandel identifica cinco funções essenciais para o jornalismo das próximas décadas: 

  • Interdependência multidisciplinar; 
  • Ênfase nas relações pessoais; 
  • Acção como ponte entre as pessoas; 
  • Contextualização localizada das notícias; 
  • Produção colectiva de conhecimento. 

Para Castilho, o problema estrutural do jornalismo reside na formação oferecida pelas universidades. As competências tradicionalmente associadas à profissão (escrever leads, editar vídeos, aplicar a pirâmide invertida) já não são suficientes. “Na era da inteligência artificial, os repórteres, editores, fotógrafos, comentadores e ilustradores precisam muito mais dos conhecimentos e ferramentas de disciplinas como sociologia, antropologia, estatística e psicologia”, sublinha. 

Trata-se de ensinar o jornalista a avaliar quando um facto exige investigação aprofundada, quando deve ser verificado rigorosamente ou quando tem impacto social relevante. É também uma defesa contra a desinformação. “O grande patrão do jornalista já não é o dono do jornal, da revista, da rádio ou da TV, mas o público ao qual ele se dirige”, afirma Castilho. 

É essa mudança de valores, métodos e objectivos que, segundo o autor, apenas o mundo académico pode proporcionar. “Atitudes, normas e conceitos que só a universidade pode ensinar”, conclui. 

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