O extremismo como desafio para a cobertura mediática
O extremismo tornou-se um tema recorrente na agenda mediática — mas, nos mercados locais, continua a ser vivido de forma profundamente pessoal. Num texto para o Columbia Journalism Review, o jornalista Liam Scott recorda um momento que marcou Steven Monacelli, repórter de investigação freelancer do Texas Observer.
No último Dia de Acção de Graças, Steven foi acordado abruptamente pelo som de agentes da polícia a bater à porta da sua casa em Dallas. Alguém tinha denunciado falsamente que Monacelli estava a agredir a sua namorada. Esta, entretanto sua noiva, apressou-se a confirmar às autoridades que as alegações eram totalmente infundadas.
Apesar do choque, Monacelli não ficou surpreendido. “Soube imediatamente porque é que eles estavam ali”, afirmou. Há mais de quatro anos que investiga o crescimento do extremismo de extrema-direita no Texas, com reportagens sobre a influência conservadora nas escolas e sobre grupos como um autoproclamado “clube de luta nacionalista branco”. Este trabalho tornou-o alvo frequente de assédio: doxings, ameaças e perseguições à sua família são um risco habitual.
No momento da denúncia, preparava-se para publicar uma investigação que expunha os responsáveis por quatro grandes contas neonazis na plataforma X. “Os repórteres que cobrem extremismo sabem que, mais cedo ou mais tarde, se tornam eles próprios alvos”, disse Monacelli.
Casos como este, incluindo os chamados swattings — quando se chama a polícia à casa de alguém com base em denúncias falsas —, não são novos. Contudo, a ameaça parece estar a agravar-se à medida que certas visões extremistas se normalizam no discurso público. Como observa Heath Druzin, repórter sobre extremismo no Idaho, “muito do extremismo é, neste momento, apenas reportagem política”. Com o retrocesso da supervisão federal sobre grupos extremistas, muitos jornalistas locais sentem-se abandonados na linha da frente.
“O extremismo é, fundamentalmente, um problema local, amplificado a nível nacional”, defende Dana Coester, professora de jornalismo na Universidade da Virgínia Ocidental e fundadora da redacção sem fins lucrativos 100 Days in Appalachia, que se dedica à cobertura do extremismo regional. “Há mais riscos a nível local. É-se acessível, é-se visível, faz-se parte da comunidade que se está a cobrir e não se vai embora”.
Este tipo de pressão tem consequências emocionais nos repórteres. Jordan Green, jornalista do Raw Story na Carolina do Norte, foi vítima de uma campanha de assédio por parte de um grupo neonazi que investigava. O episódio culminou com seis supremacistas brancos à porta da sua casa, de tochas nas mãos e a fazer a saudação nazi. Um deles empunhava um cartaz com ameaças explícitas. Green mudou de número e, actualmente, o assédio limita-se ao espaço online, mas o impacto persiste. “Ficou uma ansiedade permanente, uma sensação de estarmos sempre a olhar por cima do ombro”, partilha. Embora se preocupe com a segurança da mulher e dos filhos, diz estar demasiado comprometido com o seu trabalho para recuar.
Apesar dos riscos, muitos jornalistas insistem na importância de continuar. “Sim, corro mais riscos por reportar sobre pessoas que vivem perto de mim”, reconhece Monacelli, “mas não podemos permitir que esse tipo de receios nos impeça de fazer reportagens”.
Daniel Walters, repórter da InvestigateWest, organização sediada no noroeste do Pacífico, reforça a importância da proximidade na cobertura do extremismo: “Idealmente, todos os repórteres de extremismo deveriam ser locais”. Segundo ele, o fenómeno apresenta variações consoante a região e só quem conhece o contexto consegue captar as suas nuances. Caso contrário, a cobertura fica apenas pela superfície, algo como ‘vejam este maluco desagradável’, e perde-se a complexidade do fenómeno.
Para Amanda Moore, freelancer em Washington, D.C., os riscos tornaram-se quase banais. “Ah, tenho um perseguidor!”, comentou, casualmente, durante uma entrevista. “Está preso neste momento, por isso até me esqueci dele. Têm sido umas belas semanas”.
Moore começou a fazer investigação infiltrada sobre a extrema-direita em 2020. O seu trabalho foi publicado em meios como a Mother Jones e a Politico. No entanto, diz que já não consegue manter-se anónima entre os círculos que investiga. No dia da tomada de posse presidencial, por exemplo, o neonazi Ryan Sanchez apareceu à porta da prisão de D.C., onde estavam detidos participantes do ataque ao Capitólio, gritando: “Onde está a Amanda Moore?”
“Sou uma espécie de celebridade nos eventos da direita — mas daquelas que toda a gente odeia”, descreve. Para se proteger, recorre a uma caixa postal como morada, paga um serviço para eliminar os seus dados da Internet e nem sequer se regista para votar. “Sou uma espécie de fantasma”, diz.
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