Estudo do Reuters Institute revela que maioria de jornalistas britânicos já adoptaram a IA
Um novo estudo do Reuters Institute, baseado num inquérito a cerca de mil jornalistas do Reino Unido entre Agosto e Novembro de 2024, revela um panorama complexo: a inteligência artificial (IA) está cada vez mais presente nas redacções britânicas, mas o entusiasmo pela tecnologia convive com receios sobre o seu impacto no futuro do jornalismo.
O relatório centra-se em saber se, como e porque é que jornalistas e meios de comunicação utilizam a IA, e de que forma esta se relaciona com práticas profissionais, atitudes e níveis de integração nas redacções. As conclusões revelam um sector em rápida transformação, mas também em permanente tensão.
A maioria dos jornalistas britânicos já usa IA no seu trabalho quotidiano. Segundo o estudo, “56% dos jornalistas do Reino Unido utilizam a IA profissionalmente pelo menos uma vez por semana”, enquanto apenas 16% nunca a utilizaram para tarefas jornalísticas.
A utilização é particularmente frequente em tarefas de processamento de linguagem: “49% dos jornalistas do Reino Unido utilizam IA” para transcrição ou legendagem, 33% para tradução e 30% para revisão gramatical ou edição de texto. Mas a tecnologia já está a ocupar espaços mais substantivos na produção noticiosa, incluindo “pesquisa de agendas” (22%), “geração de ideias/brainstorming” (16%) ou mesmo “geração de partes de artigos de texto (por exemplo, manchetes)” (16%).
Ainda assim, apenas 4% utilizam IA para áudio e 2% para vídeo pelo menos mensalmente.
O estudo revela tendências claras: jornalistas mais jovens, aqueles que se identificam como homens e profissionais com maior responsabilidade de gestão utilizam a IA de forma mais frequente.
O uso também varia consoante a área de especialização. “43% dos jornalistas de negócios utilizam a IA profissionalmente pelo menos semanalmente, em comparação com 21% dos jornalistas de lifestyle.” Já o tipo de contrato parece irrelevante, o que mostra que “o acesso a algumas ferramentas de IA foi democratizado”.
A adopção cresce ainda entre jornalistas que trabalham em múltiplos formatos — texto, ilustração, vídeo — enquanto a produção fotográfica se associa a menor frequência de uso.
A satisfação no trabalho e as considerações em relação à IA
Os jornalistas que utilizam IA com mais frequência “tendem a acreditar que trabalham em tarefas de baixo nível com demasiada frequência” e revelam menor satisfação com o tempo disponível para actividades “complexas e criativas”.
A visão global da classe jornalística britânica permanece fortemente negativa. O estudo indica que “62% consideram [a IA] uma ameaça ‘grande’ ou ‘muito grande’ ao jornalismo”, enquanto apenas 15% a vêem como uma oportunidade significativa.
A preocupação estende-se a temas centrais da profissão: 60% estão “extremamente preocupados” com o impacto da IA na confiança pública, 57% no valor da precisão e 54% na originalidade do conteúdo. As diferenças entre grupos demográficos são mínimas, e a ansiedade é maior entre quem tem mais conhecimentos em IA, embora os utilizadores diários se revelem menos alarmados.
Apesar da utilização individual crescente, a maioria das redacções britânicas encontra-se ainda num estado embrionário de integração tecnológica. “60% afirmam que houve alguma integração da IA nas suas redacções, mas a integração é esmagadoramente descrita como ‘limitada’.”
Os jornais, os meios comerciais e os conglomerados apresentam níveis de integração ligeiramente superiores, mas longe de serem generalizados. Ainda assim, os jornalistas dizem esperar um crescimento acentuado no futuro: existe uma diferença de 63 pontos percentuais entre quem acredita que o uso de IA irá aumentar e quem considera que irá diminuir.
Protocolos e formação
Segundo o estudo, “60% dos jornalistas do Reino Unido afirmam que o seu principal veículo de comunicação estabeleceu protocolos ou directrizes de IA”, sobretudo sobre supervisão humana (44%), privacidade e segurança dos dados (43%) e transparência (42%). Apenas 27% referem orientações sobre parcialidade e imparcialidade.
A formação interna continua limitada: cerca de um terço dos jornalistas dizem que o seu veículo oferece treino em IA. Quanto às ferramentas utilizadas, 57% dos jornalistas referem o uso exclusivo de soluções de terceiros, enquanto somente 9% utilizam ferramentas desenvolvidas internamente.
Os meios de propriedade pública e os conglomerados destacam-se por serem mais propensos a ter protocolos, formação e ferramentas internas.
(Créditos da imagem: Unsplash)