A inteligência artificial, a inovação nas redacções e os desafios que se colocam ao futuro do jornalismo estiveram em destaque na terceira e última sessão das Jornadas Técnicas da Imprensa Regional 2026, promovidas pela Associação Portuguesa de Imprensa (API). O encontro decorreu a 19 de Junho, no Museu da Vila Velha, em Vila Real, reunindo profissionais da comunicação social, investigadores e especialistas para reflectirem sobre o impacto da IA no sector. 

A sessão encerrou um ciclo de encontros que passou anteriormente pelo Fundão e por Lisboa. O evento contou com o apoio do Município de Vila Real, que disponibilizou o espaço para a sua realização. Durante a manhã, o presidente da Câmara Municipal de Vila Real, Alexandre Favaios, marcou presença na iniciativa, sublinhando a importância da comunicação social para a sociedade portuguesa e, em particular, o papel desempenhado pela imprensa regional e local na proximidade às comunidades. 

Ao longo da sessão, os participantes acompanharam diferentes perspectivas sobre a transformação digital das redacções. Ana Santos Gomes, da DECO PROteste, apresentou a experiência da organização na utilização de ferramentas de inteligência artificial aplicadas ao trabalho editorial, partilhando os desafios e oportunidades que estas tecnologias colocam aos órgãos de comunicação social. 

Seguiu-se a intervenção de Anabela Carvalho, chefe de redacção do jornal O Gaiense, que apresentou exemplos de inovação editorial e de reforço da ligação às comunidades. A jornalista destacou a estratégia desenvolvida pelo semanário ao longo de mais de duas décadas de actividade em Vila Nova de Gaia, bem como os eventos e iniciativas que têm permitido aproximar o jornal dos leitores e criar oportunidades de sustentabilidade para o projecto editorial. 

Um dos momentos centrais da manhã foi protagonizado por Hugo Paredes, professor catedrático da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD) e investigador coordenador do INESC TEC. Na sua intervenção, defendeu que a utilização da inteligência artificial deve ser sempre acompanhada por supervisão humana. 

Segundo o investigador, é essencial compreender o funcionamento dos algoritmos e garantir maior explicabilidade, documentação e transparência dos sistemas de IA, permitindo aos profissionais conhecerem melhor as ferramentas que utilizam e assegurarem que a tecnologia permanece ao serviço das pessoas. Hugo Paredes considerou ainda que iniciativas deste género aproximam a investigação académica das necessidades concretas das redacções. 

O encerramento do programa esteve a cargo de Jacinto Godinho, jornalista, autor e realizador da RTP, que apelou à criação de mais espaços de encontro e reflexão entre profissionais da comunicação social. Na sua intervenção, alertou para o crescimento da desinformação e para os riscos da utilização acrítica da inteligência artificial, defendendo que o jornalismo deve continuar a distinguir-se pela transparência, responsabilização e intervenção humana. 

Para Jacinto Godinho, a confiança continua a ser o principal activo dos órgãos de comunicação social, devendo os jornalistas reforçar a proximidade com os leitores, valorizando a autoria e a credibilidade da informação produzida. 

No final da sessão, a presidente da Direcção da API, Cláudia Maia, fez um balanço positivo da edição de 2026 das Jornadas Técnicas da Imprensa Regional, destacando a qualidade dos debates e a relevância das reflexões sobre as potencialidades e os limites da inteligência artificial. 

Uma das principais conclusões, afirmou, prende-se precisamente com aquilo que distingue o jornalismo de proximidade: "Isso a inteligência artificial não consegue fazer. Têm de ser os meios regionais, os nacionais também, mas sobretudo os meios regionais e locais é que têm essa capacidade. Conhecem o seu leitor melhor que ninguém e sabem dar ao seu leitor aquilo de que ele precisa." 

Cláudia Maia considerou ainda que a realização da sessão em Vila Real constituiu uma "aposta ganha", defendendo a importância de descentralizar este tipo de iniciativas e de promover o contacto directo com os profissionais da comunicação social em diferentes regiões do país. 

(Créditos da imagem: Associação Portuguesa de Imprensa)