“Emergency Mode for News”: um novo site para cobrir desastres climáticos
Um artigo do Nieman Lab partilha o testemunho de uma profissional na área dos media, quando o furacão Helene atingiu o Oeste da Carolina do Norte, em Setembro de 2024. Laura Lee, então directora de jornalismo da Blue Ridge Public Radio (BPR), estava a milhares de quilómetros de distância, de férias no Peru. Acabou por ser "uma bênção disfarçada": encontrava-se num local com internet estável e conseguiu coordenar à distância várias tarefas que, de outra forma, talvez não tivesse conseguido.
Lee tinha preparado um plano de emergência para a estação, mas pensado sobretudo para tiroteios em massa. O Helene fez mais de 230 mortos, custou milhares de milhões de dólares em danos e deixou comunidades sem água, electricidade e rede móvel durante semanas. À chegada a Asheville, com o carro carregado de mantimentos comprados em Charlotte, teve de improvisar. A BPR passou a emitir 12 horas por dia, em vez dos habituais dois blocos em directo, e a transmitir as actualizações do condado, feitas duas vezes por dia, seguidas de resumo e análise dos repórteres.
Mas antes de fazer rádio foi preciso tratar de algumas necessidades. "Uma das minhas primeiras tarefas foi limpar as casas de banho e montar uma casa de banho improvisada, porque não tínhamos água canalizada", contou. Hoje directora editorial da organização sem fins lucrativos NC Local, Lee defende que o planeamento de emergência não pode ficar pelas notícias: há uma hierarquia básica de necessidades, e as equipas precisam de água, comida e um sítio onde ir à casa de banho.
Uma resposta partilhada
É para evitar que cada redacção tenha de reinventar tudo sozinha que nasceu o Emergency Mode for News. O projecto é promovido pela OpenNews, pela NC Local e pela Newspack e arrancou com 1,2 milhões de dólares da Press Forward, ao longo de três anos.
Para Jessica Morrison, codirectora da OpenNews, ter tempo ou verbas para criar planos de emergência é "um luxo". O site oferece, por isso, listas de verificação pré-elaboradas para vários tipos de fenómenos extremos, como furacões, incêndios florestais ou calor extremo, escritas por jornalistas com experiência na cobertura destas situações. Inclui também uma ligação ao kit de ferramentas para catástrofes da Grist e um módulo que ajuda a construir um "pacote de acção", adaptado ao momento em que a redacção se encontra: a preparar-se com antecedência, a meio da emergência ou a recuperar.
O objectivo, sublinha Morrison, não é ensinar a cobrir notícias de última hora. "Sabemos que os jornalistas sabem como o fazer. Trata-se de reforçar as suas operações."
Ferramentas técnicas e financiamento
Durante o Helene, a instabilidade da rede impediu muitos ouvintes de aceder ao site da BPR. Lee e a equipa trabalharam com a Newspack e a NC Local para criar uma versão apenas em texto e de baixo consumo de dados, que carregasse depressa mesmo com sinal fraco. Uma funcionalidade semelhante foi activada pela NPR nas suas estações locais quando o furacão Milton se aproximava da Flórida.
A Newspack transformou essa experiência num plugin "lite-site" para WordPress, que as redacções podem incorporar facilmente nos seus sites, e desenvolve agora um segundo plugin para activar rapidamente um blogue em directo e publicar actualizações à medida que chegam.
A OpenNews está ainda a distribuir 30 mil dólares em microfinanciamentos, para pagar formação especializada e workshops que juntem jornalistas de várias redacções. A ideia é criar uma comunidade "Modo Emergência". "Muito do que descobrimos neste primeiro ano foi que o que as pessoas realmente queriam era falar umas com as outras sobre as suas experiências", afirmou Morrison.
Solidariedade entre redacções e saúde mental
Depois do Helene, Lee recebeu mensagens de editores de todo o país. Um deles, de Lahaina, no Havai, que enfrentou incêndios devastadores em 2023, escreveu-lhe que, mesmo parecendo que aquilo não tem fim, tem. Outro ajudou a montar uma rede de freelancers para triar a caixa de correio de Lee, inundada por pedidos de órgãos nacionais, mensagens da redacção e do público. "Não há razão para que as pessoas reinventem a roda de cada vez e se sintam isoladas enquanto o fazem", defendeu.
O site inclui ainda recursos de saúde mental. O Slack da redacção, contou, "transformou-se num canal de horrores", e passou a perguntar diariamente aos repórteres o que iam fazer para cuidar de si. "Nestes cenários, o seu cérebro está exausto", disse, referindo o efeito da adrenalina e privação de sono.
O que se segue
Por agora, o Emergency Mode concentra-se em desastres climáticos e meteorológicos extremos. O primeiro ano de financiamento foi dedicado à construção do site e à recolha de contributos para as listas de verificação. O segundo, em curso, serve para recolher feedback das redacções e ajustar a plataforma. Um dos primeiros pedidos foi dividir a informação em blocos mais pequenos. Essas conversas vão moldar o terceiro ano e decidir se o projecto continua depois disso.
Para Morrison, o propósito da preparação é reduzir o número de decisões a tomar durante um desastre. Com o jornalismo já sob pressão e o esgotamento profissional a crescer, a questão que o projecto coloca é se a preparação para emergências pode ser um esforço de infraestrutura partilhada entre redacções.
(Créditos da imagem: Site Emergency Mode for News)