Dia Mundial do Jornalismo sob o signo do retrocesso da liberdade de imprensa
Mais de 100 meios de comunicação social, organizações e profissionais brasileiros aderiram este ano ao Dia Mundial do Jornalismo, celebrado a 28 de Setembro. Pela primeira vez, o Instituto Palavra Aberta e o EducaMídia integram a campanha, organizada pelo Fórum Mundial de Editores (World Editors Forum), num momento que Patricia Blanco descreve, num artigo de opinião para o Observatório da Imprensa (parceiro do CPI), como marcado "pelo avanço de regimes autoritários, pela perda de espaço da liberdade de expressão e por ataques contra jornalistas".
Citando o Democracy Report 2026, do V-Dem Institute, a autora recorda que 74% da população mundial (cerca de 6 mil milhões de pessoas) vive, actualmente, em autocracias, e apenas 7% em democracias classificadas como liberais. Segundo o mesmo relatório, 44 países encontram-se em processo de "autocratização", concentrando 41% da população mundial.
Um declínio democrático "por dentro do sistema"
Blanco recorre às teses de Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, autores de "Como as Democracias Morrem" (2018), para explicar que o enfraquecimento democrático nem sempre resulta de golpes militares, ocorrendo antes "por dentro do próprio sistema democrático", através do abandono progressivo de normas de convivência política.
A autora recorre também à obra da historiadora Anne Applebaum, "Autocracia S.A." (2024), para descrever como regimes autoritários contemporâneos passaram a organizar-se em redes que atravessam fronteiras, partilhando "interesses, métodos e uma busca comum por poder, riqueza e impunidade", ainda que sem ideologias comuns.
Confiança no jornalismo em mínimo histórico
Segundo dados do Digital News Report 2026, do Reuters Institute, citados no artigo, a confiança nas notícias caiu para 37% nos 48 mercados analisados — o valor mais baixo desde o início da série, em 2015 —, enquanto 62% dos inquiridos manifestam preocupação com a circulação de informação falsa online.
Para ilustrar esta situação, a autora recorre ainda ao cinema, citando o filme "Anniversary: Mudança Radical", de Jan Komasa, que retrata a normalização de ideias extremistas no quotidiano de uma família norte-americana, e traça um paralelo com "O Ovo da Serpente", de Ingmar Bergman.
Violência contra jornalistas atinge sobretudo as mulheres
O artigo dá particular destaque à violência dirigida a mulheres jornalistas. Segundo dados da UNESCO citados por Blanco, três em cada quatro mulheres jornalistas afirmam já ter sofrido violência online no exercício da profissão. Na sua leitura, essa violência "reduz a quantidade e a diversidade de informação disponível para a sociedade", numa tentativa de apagar a participação feminina no jornalismo.
Educação mediática como resposta
Para a autora, o combate à desinformação passa necessariamente pela literacia mediática. "A educação mediática não ensina em quem acreditar", escreve, defendendo que o seu papel é antes ajudar "cada pessoa a fazer perguntas melhores para formar a sua própria opinião" — como quem publicou o conteúdo, que fontes usou ou se outros meios de comunicação social confirmaram a informação.
A autora alerta, porém, que os dados mais recentes do PISA (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes), da OCDE, mostram uma queda generalizada na compreensão de textos entre estudantes, o que compromete a capacidade de distinguir informação verdadeira de falsa.
Sustentabilidade económica do jornalismo
Por fim, Blanco chama a atenção para o desafio económico do jornalismo, recordando que produzir informação de qualidade "exige recursos", de repórteres a equipas de tecnologia. Segundo a autora, quando uma comunidade perde o seu jornal ou emissora local, perde também quem acompanha "a prefeitura, a Câmara Municipal, as escolas, os hospitais, a segurança, a cultura, a economia e os problemas daquela população".
O artigo termina com um apelo à reflexão: mais do que celebrar o Dia Mundial do Jornalismo, Blanco defende ser essencial compreender por que ele continua a ser necessário, questionando se a sociedade será capaz de "reconhecer, enfrentar e superar" os sinais de retrocesso democrático "enquanto ainda estão a surgir".
(Créditos da imagem: Pexels)