Durante quase uma semana, a Casa Branca considerou que podia dispensar a imprensa incómoda. Na segunda-feira seguinte à proibição, o site oficial da Casa Branca promoveu um canal de vídeos "24 horas por dia, 7 dias por semana", feito de discursos, cerimónias e momentos da administração Trump. Foi baptizado de "Trump TV". 

O Presidente anunciou a proibição a 18 de Setembro e os jornalistas ficaram impedidos de entrar no sábado seguinte. Nesse dia, os repórteres Akayla Gardner (MS NOW), Betsy Klein (CNN) e Cheyenne Haslett (Politico) foram barrados pelo Serviço Secreto, que lhes apreendeu os passes. A CNN foi ainda retirada do sistema de pool televisivo, que as principais estações partilham, e ficou também sem acesso aos equipamentos e aos locais de gravação nos terrenos da Casa Branca. 

A justificação de Trump, publicada na Truth Social, foi o alegado "fake news" das três organizações. Os advogados do Governo insistiram noutra linha: a decisão incluía um processo de recurso, invocando as cartas enviadas aos órgãos de comunicação depois de a proibição entrar em vigor. 

A resposta judicial 

As três organizações foram a tribunal na segunda-feira, dia 21. Contrataram Ted Boutrous, o advogado que representou a CNN no caso Acosta, em 2018. A audiência de urgência foi na quarta-feira e a decisão saiu de madrugada. O juiz Timothy Kelly considerou que a retirada dos passes foi feita sem "o devido processo constitucionalmente adequado". Notou também que algumas das reportagens invocadas pela Casa Branca como justificação eram "rotineiras" e, em certos casos, tinham meses. Kelly foi nomeado por Trump em 2017 e já tinha dado razão à CNN no caso Acosta. 

Kelly restabeleceu o acesso durante 14 dias, enquanto o processo avança, e considerou a proibição provavelmente inconstitucional. Ordenou que a Casa Branca "devolvesse, reintegrasse e restabelecesse" de imediato o acesso. 

Na quinta-feira de manhã, o Serviço Secreto ainda barrou alguns jornalistas, apesar da decisão. Os advogados das três organizações acusaram altos responsáveis da Casa Branca de terem violado "repetidamente" a ordem. Kelly recusou marcar uma nova audiência de emergência e apontou para uma declaração de um responsável da imprensa da Casa Branca, segundo a qual os passes tinham sido reactivados. Ao princípio da tarde, Betsy Klein, da CNN, e Laura Barrón-López, da MS NOW, já reportavam em directo de dentro dos portões. 

Horas depois, a MS NOW noticiou que Barrón-López foi impedida de assistir à chegada ao pórtico para o jantar de Estado, enquanto repórteres e produtores de outras estações entraram. A visita era a do Presidente chinês, Xi Jinping. 

Um regresso que pode não durar 

Na segunda-feira, dia 28, as três organizações pediram ao juiz que prolongasse a protecção. Descreveram a proibição como um "ataque ilegal às liberdades fundamentais da Primeira Emenda" e disseram que a Casa Branca reintroduziria a proibição total assim que pudesse. Como prova, apontaram o facto de a CNN ter sido impedida de viajar no Air Force One para o Tennessee, no sábado, como membro do pool televisivo. Kelly deu às duas partes até 5 de Outubro para apresentarem argumentos sobre uma injunção preliminar e disse que pretende decidir "com celeridade". 

Num caso paralelo, o tribunal de recurso federal de Washington permitiu, por 2 votos contra 1, que a Casa Branca excluísse a Associated Press do Salão Oval e de outros espaços restritos. A lógica do tribunal foi que esses espaços não são fóruns abertos ao discurso privado, pelo que a Casa Branca pode decidir quais os jornalistas admitidos, mesmo com base no ponto de vista. Uma injunção preliminar abriria também caminho a um recurso de Trump. Se esse precedente se aplicar aqui, a "vitória" dos meios de comunicação social pode tornar-se frágil. 

Quanto à Trump TV, o canal continua activo e assenta numa estratégia de falar directamente ao público, sem mediadores. Segundo um artigo publicado no Columbia Journalism Review, a Trump TV não é uma ameaça séria ao jornalismo legítimo. Mas transmite a realidade em que Trump gostaria de viver, e os limites dessa realidade estão a ser testados com a proibição. Tal como outros projectos mediáticos do Presidente, incluindo a estratégia de "pagamento por verdade" no Truth Social, que, recentemente, recebeu de um grupo de antigos procuradores federais a avaliação de "risco óbvio de corrupção", a iniciativa parece intencionalmente provocatória. O artigo conclui que a imprensa não se pode dar ao luxo de ceder espaço à propaganda. 

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