Num texto para a edição número 49 dos “Cuadernos de Periodistas” editados pela Associação de Imprensa de Madrid, com a qual o CPI mantém uma parceria, Emílio Doménech, jornalista e fundador do projecto WATIF, refere que, “à medida que plataformas como o X, o TikTok ou o YouTube se tornam mais hostis a todos os supostos representantes do sistema, a margem para defender o nosso trabalho como jornalistas torna-se mais estreita. O status quo há muito que abriu brechas para o risco e a inovação. Em Espanha, são necessários mais projectos que se afastem do imediatismo das polémicas e da politização editorial que tanto assusta os cidadãos”. 

Doménech partilha a experiência da sua equipa de jornalistas da WATIF, composta por jovens entre os 21 e os 36 anos, que queria “deixar as notícias de última hora para trás e falar sobre o ‘futuro’ de uma forma mais descontraída, com tempo para digerir. Queríamos investigar a forma como a tecnologia, a ciência, o trabalho e a cultura estão a mudar a uma velocidade que a muitos de nós nos espanta todos os dias. Sabendo isto, a principal questão era como chegar a públicos parecidos connosco, uma equipa de jovens entre os 21 e os 36 anos, sem aborrecer o público e sem perder dinheiro pelo caminho”. 

Em 2024, a equipa organizou grupos de discussão com utilizadores para entender o que procuram no “mar de conteúdos que nos afoga actualmente”. Descobriram que é raro os utilizadores procurarem activamente: “o conteúdo chega até eles”. 

Os meios de comunicação competem, não apenas entre si, mas também com plataformas como a Netflix, o TikTok e videojogos. “Todos eles estão a competir pelo tempo dos consumidores. E para estar à altura do desafio, os media têm de estar presentes nas trincheiras destas batalhas pela atenção do TikTok ou do Instagram, onde a hegemonia é actualmente detida pelos criadores de conteúdos”, considera Doménech.  

Alguns criadores de conteúdo, embora sejam jornalistas, conseguiram criar laços com um público que não os identifica como tal. Emilio Doménech dá o exemplo de Tamayo, um criador de documentários de investigação no YouTube que ganhou reconhecimento: “Os seus vídeos a desmontar cultos e burlas acumulam centenas de mensagens a aplaudir o seu trabalho. E ele merece! O importante, porém, é que é difícil ler o mesmo tipo de elogios nas secções de comentários dos meios de comunicação social e do seu louvável jornalismo de investigação. Há uma desconexão. O público não entende o que fazemos. E a nossa teoria é que perdemos as pontes que ligam os jornalistas às pessoas”.   

Para recuperar a conexão, o autor afirma que é necessário que os jornalistas se afastem das convenções dos meios de comunicação social e que se apresentem de uma forma mais humana. “O jornalista tem de voltar a estar mais presente na história. Temos de explicar melhor ao público que somos seres humanos que lhes estamos a contar todas as histórias importantes que também nos interessam e nos comovem". 

Projectos como o WATIF têm como objectivo aproximar o público, mostrando aos leitores quem são os jornalistas por detrás das reportagens. Para Emílio Doménech, “o formato que melhor se presta ao jornalismo no actual contexto de consumo é o podcast em vídeo”. O jornalista destaca duas oportunidades oferecidas pelo videopodcast: a aproximação ao público através de um formato longo e descontraído, em que os jornalistas podem ser vistos, não apenas como profissionais, mas também como pessoas que partilham o seu entusiasmo pelos temas que abordam; e usar este formato para competir nas "guerras pela atenção do público", mostrando que o jornalismo pode ser “curioso, excitante e capaz de abrir janelas para mundos que muitas vezes estão demasiado distantes”. 

A filosofia do projecto WATIF, segundo Doménech, é tornar o jornalismo “tão acessível quanto possível” e atraente para o público jovem. Neste sentido, o projecto segue dois princípios: apostar no infotainment, “sem medo de nos divertirmos a fazer o jornalismo de que mais gostamos”, e “nunca subestimar a inteligência do público, mas também nunca sobrestimar os seus conhecimentos prévios”. 

Emílio Doménech explica que, para estabelecer a conexão entre os meios de comunicação e o público, é fundamental criar uma comunidade. Partilha a sua experiência em plataformas como a Twitch ou o Discord, nas quais fez transmissões ao vivo para cobrir as eleições presidenciais dos EUA em 202O e conseguiu uma maior união com os seus seguidores. Durante a pandemia, a comunidade no Discord “foi um sucesso e dinamizámo-la o mais possível. [No WATIF,] criámos equipas de acordo com os partidos políticos dos Estados Unidos (Republicanos, Democratas, Libertários, Verdes) e criámos um sistema que permitia que os membros da comunidade subissem de nível de acordo com a sua participação (alguns tornaram-se governadores, senadores ou mesmo Presidentes dos Estados Unidos)”. Esta dinâmica ajudou a fortalecer a interacção entre os membros da comunidade: “É uma espécie de laço precioso que, obviamente, vai para além do trabalho de um meio de comunicação social normal, mas também fala do poder que a criação de conteúdos ou o ofício do jornalismo podem ter para juntar pessoas de bolhas muito diferentes”. 

Agora, o objectivo do projecto é continuar a cultivar esta conexão com a criação de uma comunidade digital através de grupos privados no WhatsApp e videochamadas com convidados especiais. Além disso, os seguidores da WATIF podem assistir à gravação de videopodcasts e participar em momentos de interacção e descontração com outros participantes. 

“A esmagadora maioria dos participantes até agora foram pessoas com menos de 40 anos e o que nos disseram é que apreciam o conteúdo, claro, mas também a proximidade que os formatos oferecem e o facto de os jornalistas fazerem parte de todo o processo”. 

Emílio Doménech descreve que, com uma equipa de apenas seis pessoas, a estratégia da WATIF é focada na publicação de uma "Grande História" por semana, distribuída através de diversos formatos e plataformas (TikTok, Instagram, YouTube ou Spotify): “Nunca estamos dependentes de apenas uma plataforma e somos sempre apoiados por uma comunidade de mais de 16 mil utilizadores que já nos deram a sua confiança através de uma subscrição de e-mail", conta o jornalista no seu texto. 

A WATIF tem visto a crescer em seguidores, alcance e envolvimento, e o próximo passo é transformar os números alcançados num modelo de negócio sustentável. “Isto significa estar sempre a par do que o nosso público quer. Vai desde estar atento ao que os números dizem, até à organização de sessões de escuta com os nossos seguidores. É a única forma de manter a ligação entre jornalistas e público tão estreita quanto um projecto como este exige”, acrescenta.  

O projecto recebeu um impulso financeiro inicial e, com uma primeira ronda de investimento concluída, a WATIF está a começar a gerar receita através das assinaturas pagas e dos bilhetes para eventos. Neste momento, estão a ser preparadas “as primeiras colaborações com marcas para criar a segunda etapa importante do negócio: os patrocínios”. 

Outros fluxos de receita estão em cima da mesa: consultoria a colaborações com empresas, parcerias com os meios de comunicação social para eventos, workshops com subscritores ou recomendações de produtos. 

“No nosso trabalho de explorar o mercado, compreender as tendências e conhecer os nossos concorrentes, concluímos que existem poucos modelos como o nosso. Nesse sentido, o empreendimento da WATIF tem tanto de peculiar como de ousado. No entanto, acreditamos que existe uma oportunidade para nós e para muitos outros que estão a considerar uma nova forma de fazer jornalismo. Por isso, se lerem isto e quiserem juntar-se a nós nas trincheiras, estaremos à espera para lutar convosco. A guerra da atenção ainda pode ser ganha, mas está na altura de começar a ripostar”, conclui Doménech. 

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