Num artigo para o Observatório da Imprensa do Brasil, parceiro do CPI, o jornalista e investigador Carlos Castilho defende que o jornalismo contemporâneo terá inevitavelmente de conviver e cooperar com os “influenciadores” digitais. Segundo o autor, “o jornalismo tradicional já não consegue mais dar conta sozinho da avalanche de dados, factos e eventos publicados na internet.”

Castilho lembra que, no Brasil, estima-se existirem entre três a dez milhões de pessoas classificadas como ‘influenciadores’, enquanto o número de jornalistas profissionais em actividade não ultrapassa os cem mil. Esta disparidade revela um fenómeno incontornável: indivíduos sem formação académica em jornalismo têm hoje “muito mais possibilidades de testemunhar factos noticiáveis do que repórteres e fotógrafos profissionais”. 

Para o autor, a tecnologia conferiu às pessoas comuns o poder de publicar “dados, factos, eventos e ideias directamente na internet sem passar pelas redacções jornalísticas”. Com isso, o jornalismo perde a exclusividade da actualidade pura e dura (as chamadas hard news), mas ganha “novas e transcendentais funções”, como investigar, contextualizar e verificar as informações produzidas por cidadãos, entre os quais milhares de autoproclamados influenciadores. 

Os quatro dilemas do jornalismo contemporâneo 

Castilho identifica quatro dilemas que marcam a relação entre jornalistas e influenciadores: 

  • A designação “influenciador” 

 O termo, afirma, “introduz a ideia de que alguém está a influenciar alguém”, podendo induzir a percepção de interesses na divulgação de um facto ou evento. Embora reconheça que “não há objectividade e isenção absolutas” no jornalismo, insiste que é imprescindível manter a confiança do público e a intenção genuína de retratar a realidade da forma mais fiel possível. 

  • Distinguir informação de autopromoção 

 O segundo dilema prende-se com a dificuldade em separar quem procura “disseminar notícias que atendam às necessidades e interesses do público” daqueles que usam a internet para promoção pessoal, comércio ou desinformação. O marketing online contribuiu para essa confusão, ao popularizar o termo influenciador. A expressão “produtor de conteúdo” começa a surgir, mas “ainda não descolou”, observa Castilho. 

  • A monetização dos conteúdos informativos 

 O autor alerta para o “espectacular crescimento de marketeiros amadores que se autointitulam ‘influenciadores’”, incentivados pela possibilidade de ganhar dinheiro através das plataformas digitais. Esta realidade torna “muito difícil distinguir quem publica um dado a pensar no interesse e nas necessidades do público, daqueles que visam apenas ganhar dinheiro de forma nem sempre ética e legal”. 

  • A falta de preparação dos amadores para lidar com a informação 

 Castilho considera que a avalanche informativa, a desinformação e a manipulação exigem competências que a maioria dos cidadãos não possui. “As pessoas comuns não têm preparação para lidar com a informação num contexto altamente complexo”, afirma. 

Para o autor, o jornalismo deve assumir uma função de tutoria dos produtores amadores de conteúdos informativos. Cabe aos profissionais estabelecer “parâmetros que permitam identificar” quem actua em prol do interesse público e quem apenas procura promover produtos, serviços ou ideias. Essa tarefa, reconhece, “não será fácil”, mas torna-se urgente face aos desafios que ameaçam o ecossistema informativo. 

Castilho defende que esta tutoria posiciona o jornalismo como parte integrante da nova estrutura social criada pela internet, sustentada na informação e no conhecimento: “Cabe ao jornalismo desempenhar a função de tutor dos amadores na produção e disseminação de notícias.” Uma função nova, mas crucial, numa era em que a informação deixou de ter fronteiras e qualquer cidadão pode ser, simultaneamente, fonte, produtor e difusor de notícias.

(Créditos da imagem: Pexels)