A cobertura jornalística eleitoral e a sobrevivência democrática
O projecto Better News, do American Press Institute, que dissemina projectos inovadores ou experimentais que possam beneficiar a indústria dos media, partilhou recentemente uma nova estratégia: “Em vez de fazer uma cobertura eleitoral negativa ao estilo ‘corrida de cavalos’, ofereçam ao público soluções e caminhos para o futuro com reportagens” dedicadas aos processos democráticos.
O exemplo é partilhado por Tim Lambert, editor de projectos especiais da WITF, organização de media na Pensilvânia que integra as valências de televisão, rádio, jornal online e programas educacionais.
O responsável explica a abordagem que a equipa da WITF utiliza para aumentar a confiança do público na cobertura noticiosa e para baixar os níveis de animosidade política.
Como tudo começou
Depois da invasão do Capitólio no dia 6 de Janeiro de 2021 e das ameaças de aumento da violência política, as chefias editoriais na WITF perceberam que o trabalho de apresentar os factos e de contradizer a desinformação que ia surgindo no espaço público “não era suficiente”.
Era preciso mudar a forma como se fazia a cobertura das campanhas eleitorais, deixando para trás o acompanhamento cerrado das sondagens, dos comícios e de cada movimento e declaração dos candidatos, ao estilo “corrida de cavalos”, para passar a dar prioridade aos eleitores.
“Não queríamos saber em quem as pessoas iam votar, mas sim quais eram os temas que as preocupavam”, explica Tim Lambert.
As estratégias usadas
Para desenvolver o seu plano, a WITF recorreu à experiência de outras organizações, tais como a Democracy SOS e a America Amplified, que procuram desenvolver abordagens jornalísticas mais respeitadoras das comunidades e dos processos democráticos.
Com vista a ouvir os cidadãos, a WIFT voltou a organizar os seus encontros “News and Brews”, em que elementos da equipa se juntam num bar a conversar com o público sobre os temas mais relevantes para a comunidade.
Além disso, foram criados os chamados “Fóruns Deliberativos”, em que se reúne um “grupo representativo do ponto de vista demográfico”, se disponibiliza informação aprofundada sobre um determinado assunto e se sugerem questões, que são, depois, debatidas em pequenos grupos, criados para chegar a possíveis soluções.
O que resulta e o que não resulta
“Muitas coisas resultam. Por email e em conversas pessoais com os ouvintes, temos percebido que as pessoas apreciam o afastamento da cobertura das sondagens e dos acontecimentos típicos de uma campanha”, descreve Tim Lambert.
A equipa tem conseguido chegar a pessoas com perfis muito diferentes.
Além disso, têm sido publicadas peças sobre o próprio processo eleitoral, para que as pessoas tenham acesso a informação clara, evitando que embarquem em “teorias da conspiração”.
No entanto, também há aspectos que correm menos bem. O principal é o facto de a equipa ser muito pequena, o que impede a realização de mais sessões de escuta junto da comunidade e condiciona muito o número de peças que a equipa consegue publicar.
“A nossa redacção perdeu três repórteres desde as eleições de 2020, altura em que tínhamos seis”, explica o responsável.
Uma história inesperada
Depois da tentativa de assassinato de Donald Trump durante um comício, em Julho deste ano, a WITF queria abordar o acontecimento sem cair no tradicional ângulo das notícias de última hora e sem alimentar discursos de ódio.
Assim fizeram: o jornalista responsável pelo tema entrevistou especialistas sobre como construir a paz num momento de grande divisão.
“O resultado foi uma história para o áudio e para o digital que deu aos nossos ouvintes uma maneira de fazer a diferença, reduzir a tensão da retórica acesa e manter as linhas de comunicação entre pessoas com visões políticas diferentes”.
Para terminar, quando questionado sobre o que os espera no próximo mês (as eleições presidenciais são no próximo dia 5 de Novembro), Tim Lambert brincou: “Queremos sobreviver às eleições. Fim”.
(Créditos da fotografia: imagem de capa do artigo do Better News sobre a WITF)