No final de Setembro, o Festival de L’info Locale (FIL) 2026, em Nantes, e o Audiencers Festival, em Paris, reuniram jornalistas e editores em torno de um diagnóstico partilhado. As marcas de notícias dependem de plataformas de terceiros para chegar ao público, têm dificuldade em manter a confiança dos leitores e em convencê-los a pagar, vêem as suas reportagens “raspadas” por empresas de inteligência artificial e enfrentam mais uma vaga de disrupção tecnológica. Foram destacadas três estratégias: 

1. Unir forças 

Muitos oradores defenderam a colaboração entre redacções. Na FIL, David Buttle apresentou a SPUR, uma coligação recente de editores que procura soluções técnicas e regulamentares contra a extracção de conteúdo por IA e, em última instância, uma remuneração justa para o sector. Segundo Buttle, os media possuem jornalismo rigoroso e de qualidade, precisamente o que as empresas de IA querem para treinar os seus modelos. A ideia é aumentar o custo técnico e o risco jurídico da extracção até esta deixar de compensar. 

Rhiannon Davies, da Greater Community Media, partilhou a experiência do Scottish Beacon, uma rede de editores independentes e comunitários na Escócia, que já conta com mais de 20 redacções e acaba de lançar uma Rede Escocesa de Jornalismo Ambiental. O seu conselho passa por começar com um projecto de reportagem concreto em vez de uma plataforma, acordar objectivos comuns antes do arranque e, se possível, contratar um gestor de projecto, porque estas iniciativas são “enganosamente exigentes” e não podem ser simplesmente somadas ao trabalho diário. 

Em França, o “Portail des médias indépendants”, criado pela Basta! media, nasceu da frustração com a fraca visibilidade dos pequenos meios independentes em agregadores como o Google News. Nicolas Camier explicou que o portal reúne um resumo diário de notícias da imprensa independente, com curadoria humana, ajudando a ampliar o alcance do jornalismo local. 

Houve ainda o exemplo das parcerias com criadores de conteúdo. Sara Goo, do The Washington Post, defendeu que, bem geridas, beneficiam ambas as partes: as redacções trazem apoio jurídico e verificação de factos, os criadores trazem a relação directa com o público. No Post, os criadores publicam conteúdos aprovados nos seus canais e o jornal difunde os vídeos no seu site e aplicação. Até agora, o feedback tem sido positivo e o Post chegou a um público mais jovem. 

2. Menos dependência das plataformas 

O segundo eixo foi a construção de relações directas com os leitores. Quentin Leredde, do Le Monde, e Olivier Cambournac, do Jeune Afrique Media Group, falaram do investimento em áudio integrado nas próprias aplicações para criar hábitos de consumo directo. Céline Orjubin, do My Little Paris, recordou um percurso iniciado em 2008 com uma newsletter, sem depender de plataformas, que hoje tem 250 000 subscritores e se estendeu a uma revista trimestral em papel e a eventos presenciais. 

Ficou em aberto a questão da soberania digital: devem as redacções ver-se também como plataformas tecnológicas e investir em ferramentas próprias, ou aplicar esses recursos na reportagem e optar por soluções prontas a usar? A resposta, concluiu-se, cabe a cada redacção. 

3. Ferramentas e métricas à medida 

Vários oradores insistiram na adopção de IA com propósitos específicos. O Jeune Afrique converte artigos em áudio automatizado com uma versão em IA da voz do seu editor, Marwane Ben Yahmed, treinada com horas de gravações, para tornar os conteúdos mais acessíveis e criar proximidade com o público. A Gwara Media, na Ucrânia, criou um chatbot que verifica informações em zonas de guerra com base nas suas próprias reportagens; o editor Serhii Prokopenko revelou que a ferramenta gerou um conjunto de 100 000 perguntas de utilizadores. 

Sandro Martin, do Le Nouvel Obs, explicou que todos os membros da redacção recebem formação básica em IA, cabendo a cada equipa decidir se e como a usar. Como os profissionais acabarão por recorrer à IA de qualquer modo, defendeu, é preferível ter uma estratégia, incluindo ferramentas pagas e avaliadas, a deixá-los usar versões gratuitas com riscos de segurança e qualidade. 

A mesma lógica aplicou-se às métricas. A investigadora Sophie Chauvet lembrou que visualizações e partilhas são fáceis de contar, mas não revelam se um artigo foi tema de conversa ao jantar ou mudou a opinião de alguém. Invocou a lei de Goodhart, segundo a qual uma métrica deixa de ser boa medida quando passa a ser o objectivo. 

(Créditos da imagem: Pexels)