A 29 de Outubro de 2024, as inundações causadas pela depressão DANA devastaram Valência. Em Paiporta, epicentro da catástrofe, a Camacuc, revista infantil em valenciano dedicada sobretudo à banda desenhada, perdeu as instalações por completo. O golpe chegou quando a publicação celebrava o 40.º aniversário. A revista, que apoia autores e ilustradores valencianos e promove a leitura e o uso da língua, estima as perdas entre 30 000 e 40 000 euros. 

Dois anos depois, a base de assinantes da Camacuc passou de 1 500 para cerca de 3 000, e a revista tornou-se financeiramente sustentável pela primeira vez na sua história. Recebeu também vários prémios, entre eles o Prémio Nacional de Fomento da Leitura, em Espanha. 

Em entrevista ao The Fix, o director, Joan Escrivà, descreveu uma destruição total. “A Camacuc desapareceu da noite para o dia”, afirmou. Material gráfico, ilustrações originais, stock e mobiliário perderam-se, e até as paredes e o chão ficaram danificados. A única coisa que escapou foi a carrinha da revista. 

A recuperação foi lenta e acumulou-se com a reconstrução das casas dos próprios membros da equipa. A Camacuc tem um único funcionário, o próprio Escrivà. Foi possível salvar alguns equipamentos informáticos, dados de um disco rígido, logótipos e material gráfico. “Trabalhávamos à noite e removíamos a lama durante o dia”, recordou. E admite: “Ainda hoje, não estamos 100% de volta ao normal.” 

O apoio da comunidade 

Para o director, o apoio dos leitores foi extremamente importante. “Tem sido crucial”, resumiu, atribuindo-o ao afeto construído ao longo de quatro décadas a criar banda desenhada de autor e a defender a língua. Chegou ajuda de instituições, meios de comunicação, organizações e, sobretudo, de leitores de todos os Países Catalães, mas também de Itália, França e Espanha. Todas as doações foram convertidas em assinaturas solidárias, enviadas a escolas afectadas pelas inundações. 

Quase todo o crescimento de assinantes aconteceu logo a seguir à catástrofe. A revista chega a particulares, escolas e bibliotecas. Questionado sobre se o número era superior ao de antes, Escrivà afirmou que duplicou. Perderam-se cerca de uma centena de assinaturas, ou um pouco mais, mas a maioria manteve-se. O director lembrou que as assinaturas são por natureza temporárias, já que os jovens leitores crescem e acabam por cancelar. 

Um modelo diversificado 

Antes, a revista dependia de outros projectos para se manter: banda desenhada, publicações, oficinas. O modelo continua diversificado, mas agora são as assinaturas que representam a maior parte das receitas. A subscrição custa 25 euros por seis números anuais, um a cada dois meses, e este ano juntam-se duas edições especiais de autor, num total de oito. 

Há ainda receitas das oficinas de banda desenhada em escolas, que em certos casos trocam o custo da actividade por assinaturas, da edição de projectos de banda desenhada e, em quantia residual, da publicidade. A Camacuc recorre todos os anos a apoios públicos para meios de comunicação na Comunidade Valenciana e na Catalunha, uma fonte de receita necessária há anos. As doações só surgiram após as inundações e foram usadas na reconstrução. 

“Nunca tivemos muito dinheiro”, sublinhou Escrivà, explicando que o ano é sempre passado a trabalhar arduamente para fazer face às despesas. Algumas destas fontes de rendimento deram algum alívio, mas o director admite não saber quanto tempo esse alívio irá durar. 

(Créditos da imagem: Camacuc)