A votação de 4 de Outubro revelou, segundo a opinião do jornalista Carlos Castilho publicada no Observatório da Imprensa do Brasil (parceiro do CPI), a “agonia terminal” dos modelos convencionais de cobertura jornalística de eleições. O autor sustenta que as plataformas digitais deixaram de ser ferramentas acessórias para se tornarem o novo paradigma, o que causou grande perplexidade entre os conglomerados mediáticos do Brasil, em especial as redes de televisão, que detinham o “virtual monopólio” da audiência nos dois últimos dias de campanha. 

Um modelo “pateticamente obsoleto” 

Castilho considera que a propaganda eleitoral gratuita organizada pelo Tribunal Superior Eleitoral se revelou “pateticamente obsoleta, quase caricatural”, uma “herança pré-internet” que perdeu significado político com o surgimento de novos hábitos digitais, em espaços onde as pessoas podem dizer o que entendem. 

A imprensa convencional, argumenta, já perdera o monopólio da imediatidade para a rádio e a televisão e deixa agora de ser também o espaço privilegiado para interpretar os resultados. A multiplicação de análises políticas e económicas em blogues pessoais oferece “um menu extremamente diversificado” a quem tenta perceber o que se passa, como acontece com projectos como o ICL (Instituto Conhecer Liberta) e o Poder360. 

O debate da Globo 

Para o jornalista, nada é tão icónico da agonia dos métodos tradicionais como a suspensão do debate entre candidatos presidenciais na TV Globo. O modelo, criado em 1989 pela TV Bandeirantes, já estava velho, e foi Lula quem lhe deu o “tiro de misericórdia” ao trocar o debate organizado pela Globo por uma entrevista ao podcast alternativo Flow. 

Ao longo de 37 anos, o formato passou de uma estrutura mínima a uma organização altamente complexa. A espontaneidade e a informalidade das primeiras edições deram lugar a uma regulamentação minuciosa, criada sobretudo pela Globo para evitar agressões e palavrões, que disciplinou os candidatos, mas tornou o programa “altamente enfadonho”. Esvaziou, na leitura de Castilho, a pretensão de que o debate ajudasse o eleitor indeciso a escolher. 

O autor descreve uma imprensa desorientada perante uma realidade eleitoral radicalmente diferente da que moldou as suas estratégias. Antes da internet, imprensa e televisão dirigiam-se a grandes audiências com mensagens unificadas. Hoje, os candidatos têm de se concentrar em micro públicos formados nas plataformas por seguidores de políticos e partidos. Para Castilho, a segmentação das audiências é a grande marca da nova realidade eleitoral, já esboçada em 2022, e torna obrigatório inverter as estratégias editoriais para dar prioridade a esses micro públicos. 

Antes, o objectivo da propaganda era convencer; agora, a fidelização ocupa “o lugar de honra”. O que era aberto fecha-se cada vez mais e alimenta a radicalização política, processo acelerado pela acção de algoritmos especializados. Castilho explica o fenómeno pela avalanche informativa: confusas perante a diversidade de informação, as pessoas procuram refúgio em grupos com posições semelhantes. Recorre a Cass Sunstein, professor de direito em Harvard e antigo assessor de Barack Obama, que mostra em Going to Extremes como os grupos fechados tendem a radicalizar comportamentos e opiniões. 

O nicho da imprensa tradicional 

Sem a rapidez e a diversificação das plataformas, os media convencionais podem encontrar no detalhe das agendas eleitorais o seu nicho. Castilho aponta o exemplo de alguns grandes jornais regionais dos Estados Unidos que adoptam a técnica da “conversa na mesa da cozinha” (Kitchen Table Conversation) para vencer o cepticismo das pessoas face à comunicação formal do governo e dos partidos. Esta abordagem foca os problemas socioeconómicos pela óptica das famílias, e não pela dos economistas ou funcionários públicos. 

O autor identifica ainda outro desafio para os grandes grupos mediáticos brasileiros: a possibilidade de um novo governo federal de extrema-direita. As relações da família Bolsonaro com os grupos Globo, Bandeirantes, Estado de S.Paulo e Folha de S.Paulo têm um historial de divergências e até confrontos. Castilho antecipa que o relacionamento se possa complicar com a consolidação de novos comportamentos partidários, em que a previsibilidade da centro-direita e da esquerda é substituída por um “niilismo político” da extrema-direita, marcado por imprevisibilidade e negacionismo. 

(Créditos da imagem: Magnific)