Como as redacções locais podem atrair e fixar o seu público
O distanciamento das notícias é um fenómeno crescente, com implicações para a sustentabilidade do jornalismo local. Uma investigação recente do Media Insight Project ajuda a perceber o comportamento de quem se afasta da informação, e um guia prático propõe três experiências para as redacções tentarem reaproximar-se desse público.
O peso emocional das notícias
De acordo com o estudo, 28% dos inquiridos consideram que conseguem orientar-se no panorama noticioso, tanto na procura de conteúdos relevantes como na avaliação da sua credibilidade. Ainda assim, muitos manifestam preocupação com o impacto emocional das notícias. Cerca de um terço diz sentir-se sobrecarregado ou considera-as demasiado stressantes, e apenas um em cada dez afirma que lhe dão uma visão optimista do mundo. Em resposta, 29% procuram impor limites ao tempo que passam no telemóvel e online.
A solidão surge como factor agravante. A sensação de desconexão alimenta a ideia de que os problemas das comunidades abordados pelas notícias locais são insuperáveis, e, sem esperança de os resolver, as pessoas tendem a desviar o olhar. O guia sugere, por isso, que as redacções mostrem que ninguém está sozinho e que é possível juntar esforços, a partir de informação factual, para resolver problemas.
Antes de testar qualquer abordagem, o guia defende que repórter, editor e editor sénior estejam de acordo sobre algumas condições: objectivos transparentes e adequação à comunidade e à equipa, escuta atenta durante todo o processo, responsabilidade partilhada na relação com a comunidade, clareza sobre quem executa cada tarefa e quem decide, flexibilidade e paciência numa fase de descoberta, e permissão para parar se a experiência não funcionar, sem que isso seja visto como falhanço.
1. Pensar para a ligação humana
A primeira experiência pede às redacções que avaliem a sua capacidade e a solidez da relação com as comunidades que querem alcançar. Propõe-se uma sessão de brainstorming para escolher uma comunidade, definir a forma da interacção (um evento ou uma revista, por exemplo), os temas e as questões que a afectam, e designar uma equipa para um projecto-piloto, com prazos de lançamento e de feedback e critérios definidos de antemão para medir o impacto.
A segunda parte passa por avaliar a confiança. Os jornalistas devem pedir a colegas, de dentro e de fora da redacção, que indiquem fontes de confiança na comunidade, reuni-las numa conversa franca e mantê-las envolvidas ao longo do processo. O guia lembra que há diversidade dentro de cada comunidade e que a representatividade importa.
2. Pensar para a utilidade no quotidiano
A segunda abordagem parte de comunidades hiperlocais e pede que se procurem pessoas comuns em vez de especialistas. Sugere-se recolher dados quantitativos e qualitativos, também fora da redacção, através de parcerias com bibliotecas e organizações comunitárias e do acompanhamento dos espaços digitais, para perceber que tipo de informação transmite uma sensação de cuidado à comunidade. O guia pede que esta reflexão se torne um hábito e não um exercício isolado.
Segue-se um teste-piloto com uma série de notícias comparáveis, como perfis ou rubricas recorrentes, distribuídas em formatos como texto, áudio e vídeo, e em canais como redes sociais ou mensagens de texto. O alcance deve ser medido, sem esgotar o orçamento nem sobrecarregar a equipa, e com parceiros dentro e fora da organização.
3. Pensar para a alegria e curiosidade
A terceira experiência tem como objectivo criar um sentimento genuíno de orgulho em pertencer a uma comunidade: o que faz as pessoas gostarem do lugar onde vivem? Em reunião, propõe-se perguntar o que tem sido surpreendente e o que desperta curiosidade, dando espaço a quem tem experiência na comunidade fora do contexto profissional. Perguntas semelhantes podem ser feitas às fontes, por exemplo no fim de uma entrevista.
O guia propõe ainda trazer perspectivas novas para dentro da redacção e combater o territorialismo, com trocas de áreas de cobertura, parcerias de reportagem entre departamentos, mentorias para aproximar gerações e pausas, com transferências de tarefas claras, nas áreas de maior desgaste.
(Créditos da imagem: Magnific)