No dia 23 de Setembro fez 25 anos que o jornalista sueco-eritreu Dawit Isaak e os colegas eritreus Temesgen Ghebreyesus, Seyoum Tsehaye e Amanuel Asrat foram detidos em Asmara, a capital da Eritreia. Um quarto de século depois, continuam incomunicáveis, sem julgamento e sem acesso aos familiares. Para assinalar a data, a organização Repórteres Sem Fronteiras (RSF) e 133 jornalistas de vários países lançaram um apelo para que a comunidade internacional garanta a sua libertação. 

Segundo os RSF, são os jornalistas que estão há mais tempo detidos sem julgamento em todo o mundo. Foram presos em Setembro de 2001, durante uma onda de repressão das autoridades eritreias contra vozes críticas, incluindo a imprensa independente. 

Cofundador e coproprietário do jornal independente Setit, Dawit Isaak publicou textos de defesa de reformas democráticas. Em Novembro de 2005 foi libertado por breves instantes, mas voltou a ser detido dois dias depois. Nenhum dos quatro chegou alguma vez a ser julgado, e desde então não surgiu qualquer informação que permita saber com certeza onde estão presos ou em que estado de saúde se encontram. 

Em 2009, questionado pela televisão sueca TV4 sobre o destino de Dawit Isaak, o Presidente Isaias Afwerki respondeu que não lhe interessava onde ele estava nem o que fazia, e que "cometeu um grande erro", sem mais explicações. 

Em Dezembro de 2025, na sequência da primeira visita de um governo sueco ao país em mais de 30 anos, a ministra dos Negócios Estrangeiros, Maria Malmer Stenergard, disse à agência AFP que o jornalista estava vivo, segundo a "avaliação" do ministério. 

Para Sadibou Marong, director dos RSF para a África Subsariana, a detenção durante 25 anos "é uma tragédia que se prolonga por demasiado tempo". Mantidos incomunicáveis fora de qualquer enquadramento legal, afirma que os quatro jornalistas são vítimas de uma violação grave e flagrante dos seus direitos fundamentais. Essa violação está no centro da denúncia de crimes contra a humanidade apresentada pelos RSF na Suécia, em 2024, contra Isaias Afwerki e outros altos responsáveis eritreus. Marong sublinha ainda que a detenção prolongada constitui um ataque contínuo ao direito dos eritreus à informação. 

Os pedidos de libertação de Dawit Isaak multiplicam-se desde o início da detenção. Em 2016, a Comissão Africana dos Direitos Humanos e dos Povos instou as autoridades eritreias a libertá-lo ou a organizar um julgamento rápido e justo, com pagamento de indemnização. 

O Grupo de Trabalho das Nações Unidas sobre Detenção Arbitrária recebeu também uma petição apresentada por uma coligação de advogados e organizações, entre as quais os RSF, por iniciativa do Centro Raoul Wallenberg para os Direitos Humanos. Em Março de 2023, os peritos concluíram que a detenção prolongada violava 19 artigos do Pacto Internacional sobre os Direitos Civis e Políticos e da Declaração Universal dos Direitos Humanos, que o Estado eritreu se comprometeu a respeitar. Exigiram a libertação "imediata e incondicional" de Isaak e o direito a indemnização e outras reparações. 

Em Setembro de 2024, a secção sueca dos RSF apresentou ao Ministério Público sueco uma queixa contra Isaias Afwerki e outros altos funcionários eritreus, por actos que poderão constituir crimes contra a humanidade. Contudo, a queixa não garante a abertura de uma investigação. A organização já tinha apresentado outra dez anos antes.

(Créditos da imagem: RSF)