“Washington Post”: retrato sobre o declínio e a asfixia de um grande jornal americano
O jornalista Iker Seisdedos, num artigo de opinião publicado nos Cuadernos de Periodistas da APM, parceira do CPI, traça um retrato do estado actual do The Washington Post, um jornal que, escreve, deixou os seus leitores "a carregar a sua própria tristeza" perante o desaparecimento quase total dos seus fotógrafos, o declínio da cobertura local e internacional, o desmantelamento da secção de Desporto e o fim do seu suplemento literário.
O autor ilustra esse esvaziamento com um exemplo: um domingo recente em que as páginas de cultura do jornal se assemelhavam, na sua descrição, a "um deserto" — apenas dois artigos da Associated Press, um artigo republicado de um jornal local do Condado de Orange, dois textos do mesmo repórter de Nova Iorque e uma crítica de página inteira a um restaurante "bastante esquecível".
Este cenário é, segundo o autor, consequência directa das demissões ordenadas em Fevereiro pelo proprietário do jornal, o magnata da Amazon Jeff Bezos, que despediu um terço da equipa (pelo menos 300 dos 800 jornalistas do Post). Bezos, cuja fortuna pessoal ultrapassou os 270 mil milhões de dólares no final de Maio, justificou a medida com prejuízos financeiros de 77 milhões de dólares em 2023 e 100 milhões em 2024, segundo dados do The Wall Street Journal citados no artigo. Mas, escreve Iker, estes números "não captam completamente a história da decadência" de um jornal que definiu o padrão do jornalismo americano na década de 1970, com a investigação do caso Watergate.
"A vítima da corrupção flagrante"
O jornalista recorre às palavras de Robert G. Kaiser, antigo editor-adjunto do Post entre 1963 e 2014, que num artigo na The New York Review of Books, intitulado "Post Mortem", escreveu que o jornal "está a morrer asfixiado, vítima da corrupção flagrante que saqueou este país durante a presidência de Trump, o presidente mais corrupto da história dos EUA."
O autor recorda que Kaiser começou a trabalhar no Post no mesmo ano em que Katherine Graham se tornou a primeira mulher a ser proprietária de um jornal na história americana, e saiu pouco depois de Bezos ter comprado a publicação por 250 milhões de dólares, em 2013, para a salvar de uma situação financeira calamitosa.
De inimigos declarados a jantares privados
Um dos eixos centrais do artigo é a transformação da relação entre Bezos e Donald Trump. Durante o primeiro mandato do republicano, os dois eram, escreve Iker, "inimigos declarados". Hoje, a relação é bem diferente: numa entrevista recente citada no artigo, Bezos descreveu Trump como "mais maduro, mais disciplinado" neste segundo mandato, defendendo ainda que o Post "precisa de ser uma empresa lucrativa e autossustentável" — algo que, nas suas palavras, será "a medida da sua relevância". Bezos chegou a comparar a ausência dessa autossustentabilidade a "poesia sem rima", uma frase que o autor não deixa de assinalar como reveladora de "ignorância literária", tendo em conta o desmantelamento entretanto sofrido pelas páginas de cultura do jornal.
Para perceber esta mudança, Iker recorre a Martin Baron, antigo director do Post, que dedicou um livro de mais de 500 páginas ao tema — Enfrentar o Poder: Trump, Bezos e o Washington Post — publicado em 2023, dois anos depois de se ter reformado, em Fevereiro de 2021. Segundo Baron, citado numa entrevista no seu apartamento em Nova Iorque, "muitas pessoas, incluindo o próprio Bezos, pensavam que a carreira de Trump tinha acabado depois de 6 de Janeiro [de 2021]". Mas, continua Baron, quando Bezos "viu que podia voltar a ser presidente, acho que ficou assustado. E não estava errado, porque Trump fez exatamente o que disse que ia fazer: vingar-se dos seus inimigos. E sempre considerou Bezos um deles, sobretudo por causa da cobertura do Post."
Baron recorda ainda que Trump já tinha enviado um aviso a Bezos em 2019, ao tentar cancelar um contrato de 10 mil milhões de dólares do Pentágono com a Amazon Web Services — situação que o empresário conseguiu evitar na altura. Segundo Baron, o contexto competitivo também pesou nas decisões de Bezos: "nessa altura [pouco antes da eleição de 2024], o melhor amigo de Trump era Elon Musk, com quem Bezos competia na corrida espacial. Larry Ellison, fundador da Oracle e doador da campanha republicana, era também um rival no sector da computação em nuvem. Perante todas estas ameaças, agiu para proteger o seu negócio."
Um editorial cancelado e 250 mil subscritores perdidos
Entre as medidas de protecção do seu negócio, Iker destaca a decisão de Bezos, tomada 15 dias antes da eleição presidencial, de impedir a secção de Opinião de publicar um editorial já escrito a favor de Kamala Harris, quebrando a tradição do jornal de apoiar formalmente um candidato. A decisão não foi bem recebida: segundo o artigo, cerca de 250 mil subscritores, aproximadamente 10% do total, cancelaram as suas subscrições nos dias seguintes.
Os planos de Bezos para as páginas de opinião não ficaram por aí: no início de 2025, anunciou que estas passariam a defender o "mercado livre" e as "liberdades individuais", uma defesa que, segundo o jornalista, tem na prática beneficiado sobretudo "as liberdades de uma só pessoa: o Presidente dos Estados Unidos", dando como exemplo um editorial que elogiou Trump por ter demolido a Ala Leste da Casa Branca sem licença.
O êxodo de talento
O artigo recorda ainda outros gestos de aproximação de Bezos a Trump: a doação de um milhão de dólares para a tomada de posse presidencial e um jantar em Mar-a-Lago com Trump e Melania Trump, usado para promover um documentário produzido pelo empresário, com um custo total de 75 milhões de dólares.
Iker Seisdedos nota a ironia sentida por muitos jornalistas despedidos: o valor cortado em salários seria, segundo colegas contactados pelo autor via WhatsApp, "mais do que suficiente" para ter sido coberto pelo mesmo Bezos que, em 2013, defendia publicamente o investimento e o crescimento como única forma de enfrentar o futuro incerto dos media.
O resultado, segundo o autor, foi um êxodo de talento do Post para outros veículos mais bem posicionados — do The Atlantic ao The Wall Street Journal, passando pelo The New York Times, além de projectos mais recentes como a Semafor, a Status, a Punchbowl News, a Puck, a Zeteo ou a Equator.
O artigo termina com uma nota irónica sobre um projecto em particular: o NOTUS, jornal fundado em 2023 em parceria com a Allbritton School of Political Journalism, que está prestes a ser renomeado The Star — em referência a um histórico jornal conservador de Washington, publicado entre 1852 e 1981. Curiosamente, foi o próprio Washington Post, fundado em 1877, quem adquiriu o terreno, os edifícios e as impressoras do Star na sequência da falência deste último. Agora, segundo Iker, os novos donos do Star preparam-se para, pelo menos simbolicamente, "contra-atacar" o seu antigo rival, apostando nas notícias locais e no desporto da cidade, áreas que os leitores de Washington perderam com os cortes no Post.
(Créditos da imagem: Washington Post_Graeme Sloan/Sipa USA/AP)