Como contornar a censura
Informação e propaganda - Em Lisboa, num dos pavilhões da Mitra, está patente a exposição “Armas de Papel”, dedicada à imprensa e publicações clandestinas do período entre 1926 e 1974, ou seja todo o tempo que durou a ditadura do Estado Novo.
Algumas pessoas poderão querer reduzir os materiais expostos a exemplos de propaganda oposicionista e partidária e até poderão argumentar que não havia falta de jornais legais nessa época: em Abril de 1974 existiam mais de uma dezena de jornais diários em Lisboa e no Porto, outros tantos periódicos por todo o país (entre eles o mais antigo jornal português, fundado em 1835, o Açoriano Oriental, um dos dez mais antigos do mundo). E havia uma dezena de estações de rádio, entre as do Estado, da Igreja e as próximas do regime, mas apenas um canal de televisão, também do Estado.
O problema é que mesmo os jornais diários e publicações semanais mais ligados à ala liberal do regime no tempo do Marcelismo (como o Expresso) ou à oposição (como o República), só eram publicados depois de serem visados pela censura e com os cortes que o lápis azul dos censores impunha. Isto aplicava-se também aos noticiários da rádio e da televisão, às canções que podiam passar ou aos filmes exibidos.
Ou seja, apenas circulava a informação que o regime considerava inofensiva, o que desde logo eliminava notícias sobre greves, protestos, presos políticos, manifestações, protestos estudantis, a guerra colonial ou até catástrofes como as cheias de 1967.
A censura não se limitava a cortar texto, afiava a sua tesoura em cima de fotografias que de algum modo pudessem pôr em causa o regime - como aconteceu nas campanhas eleitorais de Norton de Matos, Humberto Delgado e, depois, nas campanhas eleitorais de 1969 e 1972 ou no funeral do estudante Ribeiro dos Santos, assassinado pela PIDE em Outubro de 1972 dentro de instalações universitárias.
A imprensa e as publicações clandestinas tinham um papel importante: não se limitavam a divulgar ideologia ou manifestos políticos, eram a forma de dar nota do que se passava no país e não era mostrado, davam sinal da existência de oposição, relatavam, sobretudo nas publicações feitas na emigração, a realidade sobre a guerra colonial.
Muitas vezes eram feitas de forma rudimentar - e esta exposição “Armas de Papel”, promovida pelo Arquivo Ephemera, mostra exemplos de aparelhos utilizados para imprimir jornais e panfletos, relata formas de distribuição usadas e dá uma boa ideia sobre a maneira como em circunstâncias difíceis, e muitas vezes arriscadas, se mostrava o que o regime queria esconder.
Até 30 de Junho, na Mitra, de sexta a domingo entre as 10 e as 18.