Festival de Jornalismo de Perugia como barómetro para o estado da informação
O Festival Internacional de Jornalismo de Perugia voltou a funcionar como barómetro para o estado da informação, num momento em que a mesma enfrenta novas pressões tecnológicas, hostilidade política crescente e uma transformação acelerada.
A edição de 2026 confirmou inquietações profundas sobre o futuro das redacções, mas também expôs sinais de adaptação, inovação e resistência.
Inteligência Artificial e inovação
Um dos temas centrais foi o impacto da inteligência artificial nas redacções. A questão deixou de ser apenas tecnológica para se tornar profundamente editorial: como manter padrões de rigor, precisão e independência quando sistemas não determinísticos passam a integrar processos noticiosos?
Responsáveis de meios como BBC, New York Times e Helsingin Sanomat defenderam que a IA pode reforçar o trabalho jornalístico, mas apenas se os princípios editoriais forem codificados, testados e supervisionados com extremo cuidado. Ferramentas internas, automação de voz e pesquisa documental avançada surgem como áreas promissoras, mas persiste prudência quanto à exposição pública de chatbots jornalísticos sem controlo robusto.
Públicos marginalizados
Perugia evidenciou também uma crítica recorrente às grandes organizações noticiosas: a incapacidade de falar eficazmente para audiências de baixos rendimentos ou socialmente marginalizadas.
Alguns projectos apresentados pela Roménia, País de Gales e Estados Unidos mostraram que muitos media continuam afastados das comunidades que pretendem cobrir. A ausência de representatividade nas redacções, aliada a formatos distantes das realidades locais, contribui para essa desconexão.
Criadores de notícias
A ascensão de influenciadores e criadores digitais foi discutida, menos como ameaça e mais como oportunidade estratégica.
Criadores como Emilio Doménech defenderam que o jornalismo tradicional continua a ser a espinha dorsal da recolha de informação, mas reconheceram que novas linguagens, plataformas e estilos narrativos permitem chegar a públicos que os media convencionais muitas vezes perdem. A principal lição: jornalistas tradicionais e criadores podem beneficiar mutuamente, desde que partilhem padrões de fiabilidade e objectivos editoriais.
O declínio da imparcialidade
Vários jornalistas defenderam que conceitos clássicos de “imparcialidade” ou “neutralidade” podem, em certos contextos, tornar-se mecanismos de falsa equivalência, “obscurecendo relações de poder e responsabilidades claras”. Em vez disso, propuseram uma abordagem assente em profissionalismo, contexto e responsabilidade factual.
A crítica incidiu especialmente sobre práticas de cobertura que colocam versões opostas lado a lado sem clarificar históricos de desinformação ou agressão. Em cenários de guerra, argumentou-se, a objectividade não pode significar ausência de contexto.
Verificação de factos
Num ambiente cada vez mais hostil para verificadores de factos, a resposta parece estar na cooperação. Projectos como LatamChequea e Factchequeado demonstram que redes transnacionais de colaboração podem ampliar eficácia, proteger jornalistas e responder mais rapidamente à desinformação.
O WhatsApp emergiu como ferramenta crucial, não apenas como canal de distribuição, mas como espaço de escuta comunitária. A verificação de factos está a tornar-se menos reactiva e mais integrada nas necessidades directas das audiências.
Big Tech e media
As editoras estão a reavaliar profundamente a sua dependência de plataformas tecnológicas, especialmente perante o risco de perda de tráfego e apropriação de conteúdos por modelos de IA.
Bloqueio de bots, protecção técnica de propriedade intelectual e pressão regulatória surgem como estratégias prioritárias. A percepção dominante é que o modelo anterior (troca de tráfego por conteúdo) está a deteriorar-se, sem que exista ainda um novo equilíbrio claro.
O futuro
Perugia deixou uma ideia menos pessimista do que muitos antecipariam. A IA generativa, por si só, ainda não destruiu o jornalismo. Contudo, alguns sistemas mais avançados, como agentes autónomos de informação, poderão alterar profundamente o modo como as pessoas consomem notícias.
A grande falha, segundo vários intervenientes, não é tecnológica, mas estratégica: o sector experimenta demasiado sem uma visão suficientemente clara sobre o seu próprio futuro.
O festival mostrou um jornalismo pressionado por crises múltiplas — económicas, políticas, tecnológicas —, mas também capaz de reinvenção. Entre redacções mais pequenas, novas plataformas, alianças de fact-checking e debates éticos mais sofisticados, a profissão continua a procurar formas de preservar relevância.
(Créditos da imagem: Riccardo Urli / International Journalism Festival)