Numa altura em que a crise dos media continua a afectar sobretudo a imprensa tradicional, há sinais de vitalidade em nichos muito específicos. É o caso da região de Jura, na Suíça, onde os jornais ultralocais gratuitos estão a proliferar. 

O mais recente exemplo é o lançamento de La Gazette de Moutier, o terceiro título criado pelo editor Clément Charles, que reforça a aposta num modelo assente na proximidade e na distribuição gratuita. Com uma tiragem de cerca de 6000 exemplares, o jornal chega bimestralmente a todas as caixas de correio da região, sendo financiado exclusivamente por publicidade. 

Apesar do aparente paradoxo de lançar novos jornais em plena crise, o responsável garante que a estratégia tem fundamentos sólidos. “Para oferecer mais opções aos nossos anunciantes e conseguir economias de escala nos nossos custos operacionais, lançámos estes dois novos títulos”, explica Clément Charles ao The Fix, referindo-se também à La Vallée Magazine, outro projecto recente. 

Os três jornais do grupo (que incluem ainda L’Ajoie Magazine) apresentam tiragens significativas para uma região com menos de 75 mil habitantes: entre 13 500 e mais de 20 000 exemplares nos títulos mais antigos, e cerca de 5200 a 6000 no mais recente. 

Um modelo baseado na proximidade 

Ao contrário de outras iniciativas locais que procuram colmatar falhas informativas, o projecto editorial de Charles segue uma lógica diferente. “A nossa abordagem editorial não visa colmatar uma lacuna na cobertura diária de notícias regionais, mas sim oferecer uma nova forma de falar sobre a região, com informação mais positiva e inclusiva”, sublinha. 

O modelo gratuito, muitas vezes visto com cepticismo, é aqui encarado como uma vantagem competitiva. “Os nossos veículos de comunicação são financiados inteiramente por publicidade. Não recebem qualquer apoio público”, afirma o editor, acrescentando que os anunciantes valorizam o facto de os jornais chegarem directamente a toda a população e permanecerem durante mais tempo junto dos leitores. 

A distribuição universal é, aliás, um dos pilares do projecto, garantindo uma forte penetração e visibilidade junto das comunidades locais. 

Desafios persistem, mas confiança mantém-se 

Apesar dos sinais positivos, somam-se alguns obstáculos no caminho. “Publicar um jornal impresso regularmente é sempre um desafio, ainda mais num contexto geral de crise económica e de ofertas de baixo custo de plataformas digitais”, reconhece Charles. 

Ainda assim, o editor identifica um factor-chave para o sucesso: a diferenciação editorial. “O nosso maior desafio continua a ser oferecer temas inéditos e apresentar a região numa nova perspectiva”, explica, defendendo que “conteúdo original de alta qualidade atrai público e fideliza os anunciantes”. 

O optimismo em relação ao futuro assenta sobretudo na forte ligação da população à vida local. “Estamos numa região onde as pessoas estão profundamente envolvidas com a comunidade local”, afirma Charles. “Isso também se aplica aos meios de comunicação social, que eles apoiam genuinamente.” 

Para já, não estão previstos novos lançamentos em 2026. A prioridade passa por consolidar os projectos existentes. “A nossa principal missão é garantir a sustentabilidade destes veículos, melhorando a oferta editorial e conquistando a confiança de mais anunciantes”, conclui o editor. 

(Créditos da imagem: Imagem retirada do site ajour)