Numa altura de grande incerteza para os media, o The Fix publicou um artigo no qual dá a conhecer o jornal berlinense Die Tageszeitung, que parece ter criado algo próximo de uma utopia noticiosa e adopta uma abordagem radicalmente diferente”: confia nos seus leitores digitais para apoiar financeiramente o jornal de forma voluntária, sem paywall ou restrições. Desde 2011, 42 mil leitores já contribuíram, muitos desde o início da iniciativa. 

A contribuição média é de seis euros por mês, embora alguns leitores contribuam com 150 euros por mês ou por ano. Aline Lüllmann, directora do diário, acredita que esta abordagem fortalece a comunidade. A equipa que compõe o jornal mantém contacto regular com os contribuintes, envia boletins informativos e convida-os para eventos. O Die Tageszeitung gera cerca de três milhões de euros anuais com essas contribuições, o que corresponde a 9% de suas receitas totais. 

Barbara Junge, chefe de redacção, afirma que o jornal não pretende introduzir um paywall, e economicamente não precisa de o fazer. Embora reconheça que outros meios de comunicação, como o New York Times e o Spiegel Online, estão a adoptar modelos de assinatura com preços próximos dos que os leitores do Die Tageszeitung estão dispostos a pagar voluntariamente, ela destaca que os contribuintes não são assinantes. O jornal depende de diversas fontes de receita: " Os assinantes digitais pagam para ter acesso a uma versão em PDF da edição impressa, enquanto os contribuintes voluntários se limitam a ler os mesmos artigos online disponíveis para todos e optam por fazer um donativo para apoiar o jornal”. 

Aline Lüllmann destaca que a informação é distinta das demais e que, por isso, “é ainda mais importante que seja de acesso livre”. Ela ressalta a perspectiva de esquerda do jornal e o seu compromisso com a “reportagem transformadora”, um tipo de jornalismo também reflectido nos leitores e colaboradores deste meio de comunicação social, que não só pagam pelas suas próprias assinaturas, mas também contribuem para que outros, com menos recursos, possam ter acesso. 

O Die Tageszeitung foi fundado em 1978 e, em 1992, deu um passo decisivo ao tornar-se numa cooperativa, sendo agora propriedade dos seus leitores e apoiantes. Actualmente, 24 mil membros garantem a independência financeira do jornal. Para ser membro da cooperativa, é necessário comprar uma acção única, a partir de 500 euros, e todos os membros, independentemente da sua contribuição financeira, têm direito a um voto nas decisões-chave do jornal. 

As assinaturas impressas e digitais são uma importante fonte de receita e o "motivo solidário" reflecte-se nos preços. Com a ideia de que quem tem menos paga menos e, quem pode, contribui mais, este jornal adopta um "preço político" de 62,90 euros por mês, mas também é possível subscrever uma taxa reduzida de 41,80 euros. As assinaturas da imprensa escrita representam 67% das receitas totais do jornal, cerca de 23 milhões de euros. 

Uma das dificuldades enfrentadas pelo Die Tageszeitung é o envelhecimento dos seus apoiantes. O leitor médio da imprensa escrita tem quase 65 anos, assim como os membros da cooperativa. Embora os contribuintes voluntários sejam, em média, cerca de dez anos mais novos, as gerações mais jovens - Geração Z e Millennials - “ainda não se interessaram o suficiente por pagar por notícias de qualidade”. 

O Die Tageszeitung está a lançar uma campanha para conectar gerações, permitindo que membros mais velhos comprem acções para leitores mais novos, que poderão participar na votação do futuro do jornal. “Quando fizerem 30 anos, perguntar-lhes-emos se querem assumir a quota e continuar a contribuir”, acrescenta Barbara Junge. Os pais e os avós também podem oferecer acções aos membros mais jovens da família e há a possibilidade de pagar os 500 euros em prestações. 

Este órgão reconhece que as suas formas de jornalismo precisam de ser reavaliadas para atrair as gerações futuras. Em 2022, introduziu a secção "futuro", focada em temas como clima, ciência e utopia. Desde 2019, já tinham iniciado uma abordagem centrada nas preocupações climáticas dos jovens. Além disso, o jornal está a aumentar a sua presença nas redes sociais e a investir em conteúdo de vídeo. “Dois terços das pessoas que se inscreviam para uma subscrição através das redes sociais costumavam vir da nossa página do Facebook, que é utilizada principalmente por um grupo etário mais velho. Agora vemos um número significativamente maior de assinaturas através do Instagram, o que nos faz pensar que estes leitores são mais jovens”, refere Barbara Junge. 

Após as eleições alemãs, o jornal ofereceu assinaturas a dez euros por dez semanas, o que levou a um aumento na faixa etária de 25 a 34 anos, de 10% para 19%, em comparação com os mesmos meses do ano passado. 

A partir de Outubro, o Die Tageszeitung deixará de ser impresso diariamente, oferecendo apenas assinaturas digitais diárias e uma edição semanal impressa, o que pode resultar na perda de até 18% dos seus assinantes actuais. 

Mas até que ponto este modelo poderia funcionar noutros meios de comunicação? Segundo o CEO, é necessário que exista uma ligação emocional forte com os leitores para que o modelo tenha sucesso. Embora o Die Tageszeitung tenha uma identidade de esquerda, essa conexão emocional é essencial, e outros jornais precisariam dessa base de apoio para implementar uma abordagem semelhante.  

“No passado, houve conversações com o The Guardian, que adoptou a mesma estratégia desde 2016. No entanto, o Die Tageszeitung continua a ser único na forma como os seus leitores estão profundamente envolvidos no seu modelo de financiamento - não só através de contribuições voluntárias, mas também como membros cooperantes que ajudam a moldar o seu futuro”.

(Créditos da imagem: Werner_Baum/ dpa)