Por ocasião da Cimeira de Acção sobre a Inteligência Artificial em Paris, os Repórteres sem Fronteiras (RSF) e a Alliance de la Presse d'Information Générale divulgaram um relatório que demonstra que a inteligência artificial (IA) pode trazer benefícios para o jornalismo “se os jornalistas estiverem envolvidos no processo e se os avanços tecnológicos forem partilhados entre as redacções”. 

O documento apresenta os resultados do projecto Spinoza, uma experiência conjunta para criar a primeira ferramenta de inteligência artificial (IA) a ser concebida em colaboração com mais de uma centena de editores e jornalistas franceses. A versão actual inclui relatórios científicos, textos legislativos e mais de 28 mil artigos publicados pela imprensa francesa desde 2022. Esta primeira experiência, focada no apoio ao jornalismo sobre as alterações climáticas, “prova que as ferramentas de IA que respeitam a ética jornalística não só são possíveis como essenciais” para melhorar o trabalho jornalístico sobre temas complexos e técnicos. 

O relatório descreve a metodologia do projecto, sendo que o desenvolvimento do protótipo foi supervisionado por um grupo de editores e jornalistas e testado por jornalistas voluntários. 

Apresentamos alguns pontos-chave do relatório:  

  • 45% dos jornalistas franceses inquiridos já utilizam a IA generativa no seu trabalho e 93% planeiam utilizá-la no futuro; 
  • Os jornalistas vêem as ferramentas de IA como uma forma de poupar tempo em determinadas tarefas: traduzir, transcrever e resumir textos ou entrevistas, por exemplo; 
  • O projecto identificou quatro pilares fundamentais para conceber uma ferramenta de IA fiável para jornalistas: ajudar os jornalistas em vez de os substituir; produzir conteúdos que sirvam o interesse público; desenvolver a ferramenta com base em casos de utilização concretos; e conter o algoritmo generativo; 
  • O código do Spinoza será disponibilizado para garantir a sua adopção generalizada e utilização colaborativa, permitindo que jornalistas e programadores adaptem a ferramenta às suas necessidades. 

O director-geral dos RSF reagiu à publicação do relatório, garantindo que “a RSF está empenhada em traçar um caminho ético e responsável, em que a inovação não marginalize o jornalismo. O projecto Spinoza consegue-o reafirmando o papel central das redacções na selecção, hierarquização e produção de conteúdos de qualidade, e salientando o inegável valor acrescentado dos conteúdos jornalísticos nos sistemas de IA. Os jornalistas e os editores têm o poder de reinventar o jornalismo, desde que recuperem a soberania tecnológica”. 

O relatório pode ser lido na íntegra aqui

(Créditos da imagem: storyset no Freepik)