Uma certa histeria mediática…
Vivem-se tempos contraditórios e extremados, seja na política doméstica ou internacional, seja no desporto e, em especial, no futebol.
Há muito que as televisões, temáticas ou generalistas foram apossadas por painéis de comentadores que, a toda hora, debitam as suas doutas opiniões encartadas, seja a descodificar o último discurso do ministro A ou B - como se o público não tivesse percebido patavina daquilo que acabara de ser dito -, seja a explicar, por tempo insuportável, o lance ou um determinado golo, como se os espectadores fossem uns rematados ignorantes, incapazes de perceber o que acontece no relvado.
E ainda sobram as chamadas “redes sociais” que, regularmente, “entram em campo”, com a desinformação em linha de ataque, transformando episódios sem relevância em “polémicas” assanhadas, nas quais os media embarcam sem filtro nem a menor parcimónia.
Se na política os extremos estão a ganhar terreno, à direita e à esquerda, outro tanto se verifica no futebol, onde o radicalismo e o clubismo inflamado contaminaram tanto adeptos como jornais e televisões.
O falecimento recente do antigo presidente do Futebol Clube do Porto, Jorge Nuno Pinto da Costa, foi alvo de um exagerado tratamento mediático, como se tivesse desaparecido o mais importante português de sempre.
A Imprensa noticiosa dedicou à sua morte generosas páginas especiais, até com a fotografia “escolhida” por Pinto da Costa, impressa em capa inteira (“JN”), ou de meia capa ao alto ( “Publico”).
Quanto à Imprensa desportiva, a cobertura foi balizada entre a capa inteira de “A Bola” e os títulos bizarros, com mensagens do tipo “Azul eterno”, no “Record”, “Eterno campeão”, em “O Jogo”. O embaraço era o de escolher o pior.
Diga-se que é inquestionável o feito do principal dirigente de um dos maiores clubes desportivos portugueses, que presidiu aos seus destinos ao longo de 42 anos. Foi uma figura que adquiriu um estatuto próprio e ganhou dimensão nacional.
Portanto, a morte de Pinto da Costa teria de merecer, naturalmente, um relevo noticioso adequado, sem resvalar, contudo, para uma espécie de “vassalagem” mediática, desvalorizando ou escamoteando, até, em não poucos casos, o seu percurso de dirigente desportivo assaz controverso.
A Imprensa não deve submeter-se apenas à lei de “vender papel” a todo o custo, nem as televisões podem servir acriticamente a “guerra” das audiências. Há princípios que não podem – ou não devem - ser desvirtuados ou subvertidos. Este episódio é, infelizmente, mais um exemplo de uma certa histeria que os media insistem em cometer, arriscando a sua credibilidade e a dos seus jornalistas, além de hipotecarem a missão do verdadeiro jornalismo, que não pode ser convertido num mero panfleto político-partidário ou clubístico.