Os jornalistas da Agência France-Presse (AFP) têm manifestado uma “profunda preocupação” face ao plano de reformas apresentado pela administração da agência, considerando que este poderá conduzir ao seu “completo desaparecimento”. 

Para reduzir custos, a administração pretende cortar em dois terços o número de cargos de expatriados (actualmente cerca de 270), mantendo apenas entre 80 e 90 postos com apoio financeiro (habitação, educação dos filhos, viagens, entre outros). Os restantes jornalistas no estrangeiro passariam a estar sujeitos a contratos locais, com salários, protecção social e condições de reforma significativamente menos favoráveis. 

Para os subscritores do texto divulgado pelos jornalistas da AFP, esta medida atinge o coração da identidade da agência: a sua rede internacional assente na mobilidade dos jornalistas. Recordam que a agência foi fundada a 20 de Agosto de 1944, na sequência da libertação de Paris, com a ambição de criar “uma rede de notícias independente e fiável em todo o mundo”. Ao longo de 80 anos, consolidou-se como uma das três grandes agências internacionais, ao lado da Associated Press e da Reuters. 

Os jornalistas defendem que a força da AFP reside numa “perspectiva única sobre o mundo”, enriquecida pelas seis línguas em que opera, e numa rede global composta por centenas de profissionais. Sublinhando que a AFP funciona como grossista de notícias — vendendo textos, fotografias, vídeos, verificações de factos e infografias a milhares de clientes —, afirmam que o seu valor acrescentado depende precisamente dessa rede internacional coesa. 

A mobilidade é descrita como elemento estruturante do modelo da agência. A sinergia entre jornalistas locais e expatriados permite combinar conhecimento profundo do terreno com uma visão externa e domínio da cultura interna da empresa. Além disso, os expatriados desempenham um papel de protecção dos colegas em contextos autoritários, ajudando a preservar a independência editorial. 

Os autores classificam o plano como “míope”, acusando a administração de agir exclusivamente com base em critérios contabilísticos. Alertam que reduzir drasticamente os incentivos à expatriação tornará pouco atractivo o trabalho no estrangeiro, colocando em risco a cobertura internacional. Questionam ainda a coerência de esperar aumentos salariais locais quando o objectivo declarado é poupar. 

Consideram que o fim prático da mobilidade poderá provocar o “colapso da rede da agência”, sobretudo se conjugado com a eventual fusão de escritórios, o que afastaria a AFP do terreno numa altura em que “estar perto do que está a acontecer nunca foi tão importante”. 

Os jornalistas alertam também para o risco político e institucional: parte do financiamento da AFP provém do Estado francês, no âmbito da sua missão de serviço público. Se a agência abdicar da sua essência e da sua rede internacional, esse apoio poderá ser reduzido ou eliminado. 

No final, reafirmam a sua vocação: “informar e continuar a informar; estar em campo em todos os lugares; ir onde outros não vão ou já não vão”. Diante da gravidade da situação, apelam ao apoio dos seus clientes (meios de comunicação social, instituições, ONG e empresas) para preservar “a única agência noticiosa internacional de origem francesa e europeia”, num contexto global em que “a informação se tornou um campo de batalha”.

(Créditos da imagem: AFP - Manuel Cohen)