Conversar com o leitor e dominar os seus problemas como “peça-chave” para a reinvenção do jornalismo
Num texto de opinião para o Observatório da Imprensa do Brasil, parceiro do CPI, Carlos Castilho reflecte sobre o desafio central da reinvenção do jornalismo local na era digital: a sustentabilidade económica e financeira. Partindo da sua experiência pessoal, o autor defende que os jornalistas devem abandonar a postura de quem “dá aulas e receitas” e passar a “conversar” com o leitor. Para Castilho, “o diálogo é um desdobramento da interactividade criada pelas plataformas digitais e redes sociais, sítios onde o público expressa as suas opiniões, o que não acontecia antes”.
O eixo central do texto é claro: “A sustentabilidade é uma questão-chave porque, sem ela, os projectos jornalísticos locais não sobrevivem.” O autor alerta para o efeito cumulativo dos fracassos — cada tentativa falhada aumenta a desconfiança das populações em relação ao jornalismo e reforça a resistência a novas iniciativas. Além disso, sublinha o desgaste humano e profissional que recai sobre jornalistas e amadores envolvidos nestes projectos.
Castilho identifica três elementos: sustentabilidade, envolvimento e atendimento das necessidades informativas. Estes formam “um conjunto só, em que cada parte depende das demais”. O envolvimento é apresentado como a base de tudo, pois estabelece “uma relação permanente e directa entre as pessoas comuns e o jornalismo”. É através dessa relação que o jornalista compreende os problemas locais e as necessidades informativas da comunidade. À medida que o envolvimento cresce, o profissional deixa de estar tão centrado na recolha de informação e passa a dedicar-se mais à “interpretação, contextualização e verificação do material informativo bruto fornecido pelo público”.
A confiança surge, assim, como pilar fundamental. O envolvimento é descrito como “condição fundamental para a confiança mútua”, permitindo um fluxo contínuo de dados e acontecimentos locais. O jornalista deixa de ser o único definidor da agenda noticiosa e passa a trabalhar em colaboração com a comunidade. Em contrapartida, o “atendimento das necessidades informativas equivale a uma retribuição do jornalismo à confiança que recebeu da população”. Esta retribuição exige rigor — “veracidade, exactidão, relevância e contextualização dos dados, factos e eventos narrados” — e uma narrativa adequada ao contexto económico, cultural, social, político e religioso da comunidade. Castilho sublinha que estas exigências tornam o jornalismo local particularmente complexo, chegando a afirmar que as “exigências de qualificação dos praticantes do jornalismo local são bem maiores do que as impostas pela maioria das empresas jornalísticas comerciais”.
No plano financeiro, o autor reconhece que a manutenção de um projecto local depende inevitavelmente de dinheiro, que se tornou escasso com a digitalização. O modelo tradicional baseado em publicidade já não assegura a sobrevivência a médio e longo prazo. Doações e financiamentos são limitados e condicionados por quem os concede. Além disso, as investigações indicam que “em média, 70% das pessoas não aceitam pagar por notícias”, quer por acreditarem que podem obtê-las gratuitamente, quer por não as considerarem essenciais no quotidiano.
Perante este cenário, Castilho defende uma combinação de alternativas, ajustada às especificidades de cada local. As soluções passam por estratégias de curto prazo (doações, anúncios, prestação de serviços, permutas) e de médio e longo prazo (assinaturas, paywall e até uma “taxa municipal” destinada ao financiamento do jornalismo local). Surge aqui a figura do “super-jornalista”, sobrecarregado com funções editoriais, comunitárias e financeiras. Como muitos projectos contam apenas com dois ou três profissionais, por vezes sem formação formal ou experiência consolidada, o autor sugere a criação de miniagências de captação de recursos, que funcionariam como estruturas de apoio financeiro.
Para Castilho, a proposta de criação de uma taxa municipal para financiar o jornalismo local trata-se de uma “solução institucionalizada” que implica uma mudança profunda: encarar o jornalismo como função social e não como mero negócio lucrativo. Contudo, alerta que essa taxa não pode tornar-se instrumento eleitoral ou partidário, sob pena de desvirtuar a sua finalidade pública. Um dos objectivos centrais seria “quebrar a resistência das pessoas ao pagamento de notícias locais” e assegurar que cada comunidade consiga financiar “pelo menos metade do orçamento do seu jornal local”.
Em suma, Carlos Castilho apresenta uma visão para a reinvenção do jornalismo local. A sustentabilidade não é apenas uma questão de receitas, mas de confiança, envolvimento comunitário e redefinição do papel social do jornalismo. O autor reconhece que “falta muita coisa ainda a ser investigada e experimentada”, defendendo que só através da conversa contínua entre jornalistas e público será possível consolidar um novo modelo para a imprensa local na era digital.
(Créditos da imagem: Unsplash)