Num contexto marcado pela sobrecarga informativa, pela inteligência artificial e pela crescente desconfiança do público, o jornalista Carlos Castilho, num artigo para o Observatório da Imprensa do Brasil, parceiro do CPI, defende que o maior desafio do jornalismo contemporâneo é reconhecer os limites da objectividade e clarificar a diferença entre factos e percepções. 

Logo à partida, Castilho rejeita a ideia de neutralidade absoluta: “Quando alguém promete objectividade e garante trabalhar apenas com factos, esta pessoa está enganada ou está a enganar”. Para o autor, toda a prática jornalística é inevitavelmente influenciada por “percepções individuais”, já que «não somos clones de ninguém». 

O risco de moldar a percepção pública 

Segundo Castilho, o problema agrava-se quando os órgãos de comunicação não assumem essa subjectividade. Em vez disso, acabam por transmitir ao público uma visão dominante, muitas vezes alinhada com a direcção editorial: “a imprensa actual […] acaba por transmitir ao público a percepção predominante na direcção e nas redacções de cada veículo”. 

Este fenómeno, considera, constitui um dos principais dilemas do jornalismo actual, ainda preso a “velhos hábitos” num cenário profundamente transformado pela “avalancha informativa” e pelas novas tecnologias. 

Ao mesmo tempo, sublinha que a diversidade de percepções é não só inevitável como desejável. “É normal e até necessário porque a diversidade de opiniões e atitudes é condição fundamental para ampliar o conhecimento individual e colectivo”. 

Assim, Castilho propõe uma mudança de paradigma: os meios de comunicação devem deixar claro que não detêm a verdade absoluta. “O que sai publicado não é a expressão completa e absoluta de um dado, facto ou evento”, alerta. 

Para o autor, o jornalismo deve assumir-se como um serviço público baseado em interpretações informadas, e não como um repositório de verdades definitivas. “Ninguém é dono da verdade”, sintetiza. 

Esta questão torna-se particularmente sensível na cobertura de temas políticos ou eleitorais, onde o “unilateralismo noticioso” pode influenciar directamente a forma como os cidadãos percepcionam a realidade e tomam decisões. 

Jornalismo: factos ou versões? 

No centro da reflexão está uma pergunta fundamental: “O jornalismo cobre factos ou versões?”. Para Castilho, a resposta é decisiva para compreender a natureza das notícias. 

Quando um jornalista entrevista uma fonte, explica, está a recolher “uma versão”; quando presencia um acontecimento, aproxima-se mais dos factos, mas continua sujeito à sua própria percepção. Esta distinção é essencial para evitar equívocos e manipulações. 

O problema surge quando versões são transformadas em “factoides” (factos falsos) e repetidas até adquirirem aparência de verdade. “A saturação informativa por factoides acaba por induzir as pessoas a conferir-lhes credibilidade”, alerta, sobretudo num ambiente digital marcado pela rapidez e pela falta de verificação. 

Risco de manipulação e crise de confiança 

Castilho critica ainda o papel de alguns meios de comunicação na amplificação dessas distorções, apontando para um “vale-tudo informativo” que alimenta o cepticismo político e o “negacionismo noticioso”. 

Na sua análise, a cobertura mediática pode assumir orientações políticas implícitas, contribuindo para a manipulação das percepções públicas, um desvio que considera incompatível com os princípios do jornalismo. 

(Créditos da imagem: Pexels)