Uma semana depois de ter completado 90 anos, faleceu o jornalista e escritor Mário Zambujal, que, ainda em Dezembro, lançou o mais recente livro "O Último a Sair", um romance policial que inclui outra ficção, talvez premonitória, "Conto Final", uma história à volta da rivalidade de dois bairros.

No jornalismo o seu percurso abrangeu o desporto, iniciando-se no jornal A Bola, e também outros diários como O Século e o Diário de Notícias, nos quais desempenhou as funções de chefia de redacção.

Na televisão tornou-se uma figura popular como apresentador de programas icónicos de desporto da RTP, como o "Domingo Desportivo" e o "Grande Encontro".

Como guionista e autor, escreveu para a rádio, teatro de revista e foi o criador de várias "sitcoms" de sucesso para a RTP. Na ficção, Zambujal estreou-se em 1980, com invulgar sucesso, num livro que se tornou um clássico da literatura contemporânea portuguesa, intitulado "Crónica dos Bons Malandros", obra que narra as peripécias de um pequeno grupo de criminosos em Lisboa, adaptada posteriormente ao cinema e à televisão.

O seu estilo, enquanto escritor, foi sempre marcado pelo humor, pela ironia fina e por uma profunda humanidade no retrato das personagens "desalinhadas" da sociedade.

Publicou vários outros títulos como "Histórias do Fim da Rua" e "À Noite Logo Se Vê". Dotado de um invulgar sentido de humor, Mário Zambujal nasceu em 1936 em Moura, viveu a primeira infância na vila da Amareleja, antes de mudar-se com a restante família para Lisboa aos cinco anos.

Numa entrevista concedida ao jornal digital Observador, em 2020, Mário Zambujal considerava que "a vida é um contrato a prazo com recibos verdes", enquanto apontava um dos seus livros como aquele que considerava mais conseguido, mas que nem por isso foi dos mais divulgados: "Cafuné".

Na mesma entrevista, respondendo a uma pergunta do jornalista, Zambujal dizia que "o que é para mim a morte? É eu estar a ver esta rua e no dia seguinte acabou, já não tenho visão para o mundo".

Quem o conheceu de perto, admirava-lhe o talento, a rápida percepção das coisas, a intuição sobre o que era importante, e tudo isto à mistura com uma piada sempre oportuna. Boémio incorrigível, Mário Zambujal conhecia Lisboa a palmo, e fazia do convívio uma arte com artistas, jornalistas e gente da noite tão boémios como ele.

Mário Zambujal foi presidente do Clube de Jornalistas, que lhe atribuiu o seu Prémio Carreira e foi condecorado como Oficial da Ordem do Infante do Henrique pelo seu contributo para a cultura portuguesa.