Na última década, a Europa Central e Oriental foi muitas vezes às urnas. A Bulgária realizou oito eleições gerais entre 2021 e 2026, a República Checa introduziu o voto por correspondência, a Roménia e a Moldávia elegeram presidentes, parlamentares e autarcas, e a Hungria viveu a eleição que pode ser considerada a mais importante das últimas duas décadas. De acordo com o artigo publicado no site do Reuters Institute, as campanhas na região são frequentemente marcadas por desinformação interna e interferência estrangeira, e os verificadores de factos têm um papel central a desmontar narrativas falsas. Cinco organizações da região, incluindo o Lakmusz, húngaro, partilharam o que aprenderam. 

1. Antecipar os temas polémicos 

O jornalista romeno Horatiu Bontea, do Factual, lamenta ter subestimado o candidato de extrema-direita Calin Georgescu, que acabou por vencer a primeira volta das presidenciais de 2024. “Estávamos errados”, admitiu, explicando que a equipa julgou que poucos votariam nele e não valia a pena verificar as suas afirmações. A eleição foi depois anulada, porque documentos dos serviços secretos apontavam para uma operação de influência estrangeira, com contas duvidosas no TikTok e pagamentos secretos a influenciadores. Em Maio de 2025, os romenos voltaram a votar e elegeram o liberal Nicusor Dan. 

Na Bulgária, a oitava eleição geral desde 2021 levou ao cargo de primeiro-ministro o candidato pró-russo Rumen Radev. Vassilena Dotkova, do Factcheck.bg, conta que a redacção teve de repensar o que desmentir: a última campanha trouxe muitas imagens satíricas geradas por IA que foram tomadas por reais. O Lakmusz enfrentou o mesmo dilema e concluiu que analisar o fenómeno era do interesse público. 

Os artigos explicativos funcionaram como peças de prevenção, sobre manifestos, voto por correspondência ou sondagens, antecipando temas que viriam a ser alvo de alegações falsas. O voto por correspondência estreou-se na República Checa em 2025, com o regresso do bilionário Andrej Babis à política. 

2. Novos formatos e aliados de confiança 

Os blogs de verificação em directo, sobretudo durante debates televisivos, revelaram-se um sucesso. O Factual, lançado em 2014 com um formato deste tipo, repetiu-o no debate presidencial de 2025. Segundo Bontea, permitiu desmentir afirmações em cerca de uma hora e foi o formato de maior sucesso do período eleitoral. O site também colaborou com influenciadores da Geração Z e passou a produzir vídeos verticais e carrosséis de Instagram, que pretende manter. 

O Lakmusz apostou em vídeos de um minuto com resumos das verificações, que chegaram a mais pessoas do que qualquer artigo, e em resumos em inglês sobre o ecossistema de desinformação húngaro. O Demagog, em colaboração com o TikTok, publicou vídeos de literacia mediática que ganharam destaque na página da campanha eleitoral da plataforma e chegaram a milhões de utilizadores. 

Na Moldávia, o Stop Fals, lançado em 2015 pela Associação de Imprensa Independente (API), publicou vídeos curtos nas redes sociais, fez parceria com a emissora pública para analisar declarações de candidatos e trabalhou com criadores de notícias. Recorreu também ao humor, com o cartoonista Alex Buretz, para ilustrar as falsidades mais virais e absurdas. O director executivo da API, Petru Macovei, defende cooperar com quem tem a confiança das comunidades: figuras populares das redes, mas também influenciadores locais como assistentes sociais ou carteiros, em quem confiam as zonas rurais e as gerações mais velhas. 

3. Educar o público 

As cinco organizações oferecem workshops de literacia mediática, reforçados em períodos eleitorais. Na Hungria, o Lakmusz visitou escolas, organizações cívicas e uma aldeia junto à fronteira romena, onde a maioria dos 300 habitantes, de origem cigana, se informava quase só pelo Facebook e pela televisão pública. O objetivo não era afastá-los dessas fontes, mas ensiná-los a pensar criticamente. 

Os verificadores da Moldávia, Roménia e Bulgária têm projectos dirigidos a idosos, o grupo mais vulnerável às campanhas de desinformação e às burlas. O Factcheck.bg permite que os idosos enviem publicações para verificação, o que serve também como instrumento de monitorização. Macovei nota que “os idosos são activos durante os períodos eleitorais” e envolvem-se muito com as notícias, por isso é preciso focar-se neles. Em 2024 e 2025, a API testou no Norte da Moldávia formações em que jovens e idosos participaram juntos. 

4. A interferência russa 

Na região, a questão já não é se haverá campanha de desinformação russa, mas qual a sua dimensão. As operações mais extensas ocorreram na Moldávia e na Bulgária, países com partidos pró-russos no parlamento. Na Bulgária, Dotkova observou grupos de Facebook que amplificavam desinformação russa enquanto apoiavam Radev, e a sobreposição com a desinformação doméstica foi “bastante explícita”. Na Moldávia, a situação é mais grave: Transnístria e Gagaúzia estão sob forte influência russa, a que se somam a Igreja Ortodoxa Russa, o Kremlin no ecossistema mediático e uma rede de notícias falsas ligada ao oligarca Ilan Shor, sancionado pelos EUA e pelo Reino Unido. Para Macovei, o que mais ajudou foi a literacia mediática: “A influência russa não desaparece depois das eleições.” 

Na República Checa, a interferência esperada não se confirmou em grande escala. O Demagog detectou centenas de contas falsas no TikTok com desinformação pró-Rússia e anti-governo, sem provas de ligação à Rússia. Na Hungria, várias campanhas foram associadas a grupos como o Storm-1516 e visaram sobretudo Péter Magyar, entretanto primeiro-ministro, mas o alcance ficou aquém do da desinformação doméstica. Uma campanha contra Ágnes Forsthoffer, do Partido Magyar, chegou a poucas centenas de utilizadores, enquanto vídeos alarmistas gerados por IA, difundidos pelo Fidesz e páginas alinhadas, foram vistos centenas de milhares de vezes. 

5. O rótulo de “censores” 

Os verificadores estão habituados a insultos e tentativas de descredibilização. O Demagog e o Lakmusz integraram o Sistema de Resposta Rápida da UE, que monitoriza a esfera digital e reporta violações às plataformas. Fridrichovský conta que foram rotulados como a organização que “censura a internet”. Os ataques abrandaram na República Checa após as eleições, mas todos os verificadores ouvidos viveram vagas de assédio, muitas vezes vindas de políticos. 

Macovei diz que, em casos graves, a API alerta a polícia, mas que geralmente opta por ignorar o assédio, para não dar espaço a falsas acusações.

(Créditos da imagem: Magnific)