O antigo presidente da Google na Europa, Matt Brittin, foi nomeado novo director-geral da BBC, assumindo funções num momento de particular exigência para a estação pública britânica. Entre os principais desafios do seu mandato estará a gestão de um processo judicial movido pelo presidente norte-americano, Donald Trump. 

Em comunicado, a BBC informou que Brittin iniciará funções a 18 de Maio, sucedendo a Tim Davie, que havia anunciado a sua demissão em Novembro, na sequência de críticas públicas relacionadas com um documentário sobre Trump. 

O processo judicial, interposto em Dezembro, reclama uma indemnização de 10 mil milhões de dólares devido à edição do documentário “Trump: Uma Segunda Oportunidade?”. A estação reconheceu que a peça poderá ter criado a “impressão errada” de que o antigo presidente incitou directamente à violência antes da invasão do Capitólio dos Estados Unidos, em 2021. 

A BBC contesta a acção judicial, rejeitando a existência de fundamento legal para o processo ou de qualquer viés estrutural na sua cobertura jornalística. Recentemente, solicitou a um tribunal da Florida que rejeite o caso, argumentando que o documentário nunca foi transmitido em território norte-americano. 

Com cerca de 21 mil colaboradores, a BBC é uma das mais importantes entidades de serviço público de comunicação social a nível mundial, produzindo conteúdos que vão das notícias ao desporto, passando pela dramaturgia e entretenimento. O seu financiamento assenta sobretudo na taxa de licença paga pelos lares britânicos que possuem televisão, complementada por receitas comerciais. 

O cargo de director-geral, que inclui um salário anual de 565 mil libras, implica uma agenda exigente. Brittin, de 57 anos, chega de uma carreira no sector tecnológico, e não da radiodifusão, um facto que o conselho da BBC considera uma mais-valia numa altura em que a concorrência com plataformas digitais, como o YouTube, se intensifica. 

A migração acelerada das audiências para plataformas online coloca pressão sobre o modelo de financiamento da BBC, que obriga contribuintes a pagar independentemente do consumo efectivo dos conteúdos. Num sinal de adaptação, a estação anunciou recentemente um acordo para produzir conteúdos para o YouTube. 

“Este é um momento de risco real, mas também de oportunidade real”, afirmou Brittin em comunicado. “A BBC precisa do ritmo e da energia para estar onde estão as histórias e o público.” 

A sua nomeação surge igualmente num momento crucial, com a actual carta régia — que define a missão e governação da BBC — a expirar no final de 2027. A sua renovação, tradicionalmente feita a cada década, expõe a estação a pressões políticas recorrentes. A secretária da Cultura britânica, Lisa Nandy, sugeriu recentemente a adopção de uma carta permanente, de modo a proteger a instituição das chamadas “guerras culturais”. 

Natural do Reino Unido, Brittin estudou na Universidade de Cambridge, onde participou na tradicional regata contra a Universidade de Oxford, e conquistou uma medalha de bronze no Campeonato Mundial de Remo de 1989. Após passagens pelo sector imobiliário, pela consultora McKinsey e pela editora Trinity Mirror, ingressou na Google em 2007, ascendendo à liderança das operações na Europa, Médio Oriente e África em 2014. 

Depois de 18 anos na empresa tecnológica, anunciou, em 2025, uma pausa na carreira, descrevendo-se como “estudante em ano sabático” e “atleta em part-time”. Agora, regressa à vida profissional num dos cargos mais exigentes dos media europeus.