Também podemos pôr as coisas em contexto e falar de riscos mais graves do que levar à destituição de um Presidente, ou denunciar as práticas de encobrimento de pedofilia no seio de uma grande Igreja. Os repórteres de guerra na Síria e no Iraque, os que morrem na luta contra o narcotráfico, na América Central, ou os que “desaparecem” quando começam a saber demais, em regimes que não gostam disso, passam por coisas piores. Mas o heroísmo de uns não desvaloriza o heroísmo de outros, nem estamos aqui a fazer campeonatos.

Modestamente, esta reflexão parte da reportagem de Nikki Usher, que esteve na inauguração da nova sede do Washington Post  e se demora na descrição dos aperitivos, dos drinks servidos e da estética do Washington Post Live Center,  “que é suspeitosamente semelhante ao Times Center  do The New York Times”  -  para o qual ela também escreve, e sobre o qual tem um livro publicado.

O que fica do seu testemunho, para lá das ironias de concorrentes, é uma outra reflexão, menos trágica, mais melancólica, sobre o destino dos jornais e daqueles que os fazem. Escreve Nikki Usher, na Columbia Journalism Review:

“Sob a direcção do seu novo proprietário, Jeff Bezos [o milionário fundador e presidente da Amazon], o Post  reivindica uma dianteira no digital, ao mesmo tempo que se posiciona para ser, nos termos de um vídeo promocional, ‘a nova publicação de referência’. Bezos gabava-se, no local, de que o jornal tem ‘a melhor equipa tecnológica, e não só no ramo da informação; podia pôr esta equipa contra qualquer outra em Silicon Valley.” (.../...)

 

“Mas estas luxuosas celebrações soam um pouco fora de tom, sabendo que a contribuição da publicidade para o jornal caíu 42 biliões de dólares entre 2000 e 2013”  - acrescenta o seu texto.

E, depois de trocar umas palavras com Bob Woodward (um dos investigadores do caso Watergate), não sobre a necessidade de jornalistas pagos para trabalharem meses a fio numa investigação que podia “dar em nada”, como teve a coragem de fazer o editor Ben Bradlee, da direcção do Washington Post  daquele tempo, mas sim sobre o custo luxuoso dos canapés de lagosta servidos nesta inauguração, recebeu a resposta apropriada de Woodward:

 

“A lagosta é apenas uma homenagem ao Ben e à boa vida que ele viveu.”  (Antes de morrer, em 2014, Ben Bradlee deixou-nos uma auto-biografia intitulada precisamente  A Good Life: Newspapering and Other Adventures). 

Mas Nikki acrescenta:  “Os jornalistas daquelas dúzias de jornais que tiveram de se mudar, de edifícios históricos para instalações mais exíguas e mesquinhas, podem sentir de modo diferente.”

 

Pois. Claro que é verdade. Infelizmente, continuamos a viver estas ambiguidades. O bom jornalismo é caro, não pelas lagostas que Ben Bradlee tenha comido na sua “boa vida”, mas porque só editores como ele conseguem que as administrações tenham no terreno, durante o tempo que for preciso, jornalistas de investigação como Bob Woodward e Carl Bernstein.

Mas reconhecer este facto não implica que se tratem do modo que vemos todos os dias, à nossa volta, os candidatos a Woodwards e Bernsteins que quiseram muito ser jornalistas porque viram, nos anos 70, “Os Homens do Presidente”, ou acabaram de ver, há dois ou três dias, “O Caso Spotlight”.