Na sua palestra inicial, não foi além da defesa do politicamente correto. Invocou os fatores que, na sua opinião, vão condicionar o Portugal que queremos ter: a competitividade, que deve assentar no conhecimento, para produzir melhor e para exportar mais; a coesão social, para manter a grande conquista que é o Estado Social; a coesão regional, para não deixar desaparecer o nosso abandonado interior; a sustentabilidade financeira, que é o suporte da saúde de qualquer economia; a política externa - destacando o espaço da lusofonia –,para afirmarmos o pouco que ainda nos resta de soberania; a cultura, que é uma herança e um património de muitos séculos. Terminou, considerando que, para fazer reformas e mudar as coisas, é urgente o compromisso e a convergência entre os portugueses e, sobretudo, entre os grandes partidos.

Mas foi na parte de perguntas e respostas, quando questionado por um deputado presente na sala sobre as reformas no sistema político e partidário, que Luís Marques Mendes soltou as amarras do seu discurso e deu largas à expressão do seu desencanto pelo sistema partidário, pela política e pelos políticos. Apresentou um quadro negro da situação vigente, afirmando que na feitura dos programas partidários não há debate, não há pensamento organizado e estruturado. Chegou mesmo a afirmar que os programas eleitorais são feitos em cima da hora, e que os candidatos a deputados nem sequer os leem antes das campanhas. E que tudo isso faz com que as promessas das campanhas não sejam cumpridas na governação. Em resumo, na opinião do orador, vivemos mergulhados numa crise de credibilidade dos políticos e das instituições. Os partidos - todos os partidos, fez questão de sublinhar - estão cada vez mais divorciados das pessoas e da sociedade. E o facto que será mais grave é o cidadão comum estar, também ele, divorciado da política, dos políticos e dos partidos.

Referiu-se muito criticamente à qualidade dos nossos deputados. Explanando que, na preparação das eleições, "a única coisa que se debate é a colocação das clientelas", e que nas listas entra tudo, o bom e o mau. O parlamento resulta assim desequilibrado, com gente competente ao lado de gente que nunca lá deveria estar, pois ao lado do mérito existe um deficit de competência, de qualidade e de credibilidade. Num sistema eleitoral em que as pessoas votam no partido e no candidato a primeiro ministro, os deputados, porque não respondem individualmente perante quem os elegeu, ficam desresponsabilizados. Felizmente nas eleições autárquicas é diferente, porque aí os eleitores votam em pessoas. E, talvez por isso, só aí os partidos recorrem a independentes para não correrem o risco de perderem votos e eleições.


Para Marques Mendes, não só a vida política se vai degradando, mas também a seriedade e a autenticidade. Só um grande exercício de cidadania pode alterar este estado de coisas. É urgente debater o sistema e, só depois disso, fazer um choque cívico. Tem de haver uma política de compromisso. Defendeu um sistema eleitoral como o alemão, com um círculo nacional e círculos nominais. Todavia, não acredita que a reforma algum dia se faça a partir do interior do sistema, justificando que os chefes partidários, sobretudo a nível local, não vão querer perder o seu poder.


Quando as conveniências superam as convicções - a expressão é do orador - a democracia, acho eu, corre perigo. A indignação aparece, a revolta e a revolução são, muitas vezes, a resposta. Há que procurar o tal compromisso para mudar as coisas, enquanto é tempo e dentro dos mecanismos que a própria Constituição prevê, antes que alguém se lembre de as mudar de uma outra forma qualquer.