No Dia do Trabalhador, Natália Huf, investigadora e doutoranda em Jornalismo, no Brasil, aproveitou para escrever no objETHOS, uma reflexão acerca da profissão de jornalista.

Natália diz que decidiu “com dez anos de idade, que ia ser jornalista. Gostava muito da ideia de viajar pelo mundo”, e de “conhecer outras culturas, experimentar comidas diferentes. Tudo parecia muito glamoroso e divertido”.

No entanto, refere que quando se entra na profissão “aos poucos, nós descobrimos que a prática é muito diferente”.

“Os filmes e séries também enfeitam muito a profissão: os de teor mais investigativo transformam o jornalista quase em super-herói, e as comédias românticas, muito povoadas por jovens repórteres de revistas de moda, fazem parecer que o dia a dia é apenas ver desfiles em passerelles e entrevistar grandes estilistas”, considera a autora, que acrescenta: “claro que, acreditar que isso é a realidade é muito ingénuo”, mas “diga isto a uma adolescente que pôs na cabeça que iria ser jornalista?!”, desafia.

Na última celebração do Dia do Jornalista no Brasil, Natália Huf diz que se deparou com dois cenários distintos, apontados por uma colega de profissão: enquanto vários jornalistas, “que actuam em redacções impressas e/ou online” partilhavam no Twitter, publicações a exigir direitos e condições de trabalho, muitos dos outros colegas, que actuam em televisão, traziam imagens de si mesmos com actores de Hollywood, cantores e personalidades que entrevistaram”, aponta.

Natália explica que fazer referência a esta situação não é, “de forma alguma” um “ataque aos colegas do audiovisual”, mas apenas algo que a chamou a atenção para “o quanto a profissão, mesmo que precarizada, ainda carrega, em certos aspectos, um ar de glamour que não condiz com a rotina da maioria dos profissionais”.

A autora diz que, na realidade, o que se passa é bem diferente e dá exemplos relativos ao Brasil.

“Segundo dados da Associação Brasileira de Jornalismo de Investigação (Abraji), os ataques contra jornalistas cresceram 23% em 2022: foram 557 episódios, dos quais 145 apresentaram traços explícitos de violência de género e/ou vitimaram mulheres jornalistas”, assinala. Os casos de agressão física, intimidação, ameaças e/ou destruição de equipamentos cresceram 102,3% em relação ao ano anterior.

Tal como é descrito numa publicação do objETHOS, em parceria com a Federação Nacional dos Jornalistas do Brasil (FENAJ), com o título “Ataques ao Jornalismo e ao seu Direito à Informação”, o jornalismo é “uma profissão que, em muitos casos, é vista com «lentes cor de rosa»”, mas tem vindo a tornar-se “cada vez mais, uma actividade de risco, com a crescente sensação de insegurança e casos de violência verbal, física, de género, entre outras”, lembra a autora.

Além disso, esta “é uma profissão” onde se “paga pouco” e a precarização está a crescer, com os vínculos laborais a diminuir e o número de freelancers e serviços sem contrato a aumentar, nota a jornalista.

Outro aspecto que Natália Huf refere é o da saúde mental. No Brasil, segundo aquela pesquisa, “66,2% dos profissionais do sector sentem stress no trabalho (…), 71,5% trabalham mais horas do que o definido no contrato e 55,8% não sentem que os seus esforços sejam reconhecidos”, lembra a investigadora.

Apesar de referir dados relativos ao Brasil, a autora nota que estes “não mostram nada de muito diferente” do que acontece noutros locais, nomeadamente nos EUA. Já em 2018, Kyle Pope, escreveu num ensaio, publicado na Columbia Journalism Review: “salários terríveis para repórteres, escassez de empregos e até mesmo um estigma social em alguns círculos que filtraram o negócio”, recorda.

A investigadora menciona que, num “sistema capitalista, as notícias são um produto que as organizações jornalísticas querem vender”, e “num mundo cada vez mais orientado ao «digital first», a obrigação do furo, muitas vezes, faz com que se publiquem informações incompletas, mal apuradas”, o que “é fruto, também, da precarização da profissão, da correria das redacções, da falta de tempo para que se trabalhe com qualidade”, diz.

No entanto, não são só as condições precárias, a saúde mental e física dos profissionais “que estão em jogo”, adverte a jornalista. “A credibilidade dos veículos, bem como a confiança que o público deposita neles, também acabam por ser directamente impactadas”.

Assim, “este primeiro de maio, Dia do Trabalhador, é um momento oportuno para pensar sobre o custo emocional que a profissão nos cobra, mas também o que ele causa. Existe algum glamour em ser maltratado por um chefe de Estado, em ganhar pouco, em trabalhar muito além do que está contratado?”, pergunta a jornalista.

Para além disso, a autora levanta outras questões: “por acaso é bonito ser preciso publicar uma notícia pela metade, pois não há tempo para verificar a informação com o cuidado necessário?”, pergunta.

E, por último, “será que algum profissional sério acha uma boa ideia o facto de “transformar um título num mero clickbait para tentar «domar» o algoritmo e angariar algumas migalhas de visualização nas redes sociais?”

A questão, diz a investigadora, é que quando os jornalistas estão “cercados” e “recebem ataques de todos os lados, por simplesmente estarem a tentar fazer o seu trabalho, fica muito, muito difícil fazer jornalismo de qualidade”.

Natália afirma que “é difícil encontrar respostas para questões tão profundas, mas é urgente que as organizações jornalísticas compreendam que, sem os seus profissionais, elas não são capazes de fazer jornalismo. Podem colocar no ar ou nas ruas algo que se parece com jornalismo, tem cara de notícia, mas, em essência, não o é. E, quando algo que parece notícia, mas não é, começa a circular… os últimos anos já mostraram o tamanho do problema que se apresenta às sociedades que se pretendem democráticas”, conclui.