O Reuters Institute esteve no Festival Internacional de Jornalismo, em Itália, e fez um resumo das principais ideias partilhadas no encontro.

O festival decorreu entre os dias 17 e 21 de Abril, no centro histórico de Perúgia, como habitualmente, e contou com mais de 180 sessões de uma grande diversidade de temas. As sessões gravadas estão disponíveis no YouTube da organização.

A edição de 2025 já tem datas: o festival irá realizar-se entre os dias 9 e 13 de Abril.

Estes são alguns dos aspectos mais relevantes da edição deste ano para a equipa editorial do Reuters Institute.

  • O formato áudio é terreno fértil para experimentar soluções com recurso à inteligência artificial (IA). O jornal norueguês Aftenposten partilhou a sua experiência de sucesso quando começou a usar as vozes artificiais para criar produtos que as pessoas possam ouvir enquanto correm, andam nos transportes, cozinham ou fazem as limpezas. Além disso, recorreram a estas ferramentas para traduzir os conteúdos em sete línguas, pensando na comunidade imigrante, mas também para facilitar o acesso à informação por parte de pessoas com dificuldades de leitura.
  • As redes sociais nunca foram tão desafiantes para os jornalistas, mas também nunca foi tão fácil criar ligação com o público. “A maioria dos jovens vê as notícias no TikTok e no Instagram. Por isso, para nós, jornalistas, é óbvio que temos de estar nessas plataformas”, disse Johanna Rudiger, jornalista na DW e ela própria com uma vasta lista de seguidores nas redes sociais. Apesar da necessidade de estar presente nas redes, Zoe Schiffer, ex-jornalista na Vox Media e co-fundadora do site de notícias de tecnologia Platformer, lembrou que “durante muitos anos”, os jornalistas usaram as plataformas digitais para chegar a um grande número de pessoas, até que “o chão desabou debaixo dos nossos pés”, numa alusão ao choque de interesses entre as gigantes tecnológicas e as empresas de média.
  • Alguns jornalistas têm receio de que a regulação da IA reprima a liberdade de imprensa. Num dos painéis do festival, a discussão foi sobre aquilo que os governos devem e não devem fazer para regular a IA e como essas regras podem afectar o jornalismo no futuro. A jornalista indiana Ritu Kapur expressou a sua preocupação de que o estabelecimento destas normas seja deturpado pelos governantes para condicionar e controlar a discussão no espaço público.
  • Os serviços públicos de comunicação social precisam de ser menos negativos e mais diversos. “Temos de ser mais corajosos a ir atrás da verdade sem medos ou favores”, disse Naja Nielsen, da BBC, uma das participantes no painel sobre o papel do serviço público na construção de socidades mais saudáveis. A jornalista lembrou que as emissoras públicas devem criar formas de aproximar o público numa altura em que as pessoas se sentem sozinhas e desligadas. “O público jovem não confia em nós só porque somos a BBC”, afirmou. Além disso, os jornalistas do painel lembraram que as redacções precisam de ser mais conhecedoras da diversidade da sua audiência, para conseguirem fazer uma cobertura que tenha interesse para as vidas reais das pessoas.
  • A presença dos jornalistas no X desde que Elon Musk comprou a rede social. Os jornalistas são da opinião de que tem havido um aumento da desinformação e de trolls (utilizadores que têm como objectivo perturbar as discussões) e uma diminuição de pessoas a aceder às histórias. Diz quem abandonou a rede social que não faz sentido continuar numa plataforma fechada, gerida por uma pessoa “errática”, que pode retirar os conteúdos a qualquer momento e que é hostil para com os jornalistas.

No artigo, são ainda apresentadas ideias sobre a cada vez maior relevância do fact-checking, a importância de o jornalismo de investigação usar métodos próximos das pessoas para chegar a fontes relevantes e o papel dos meios de comunicação social independentes em Gaza para dar um retrato mais completo do que se passa no terreno.

Alguns números

  • O jornal de investigação romeno Recorder publica cerca de 25 documentários longos por ano, e 90% das suas receitas advêm dos leitores.
  • Um quarto dos 45 milhões de dólares recebidos anualmente pela ProPublica tem origem em pequenos donativos.
  • O site do jornal Washington Informer teve um aumento de 60% nas “pageviews” (acessos ao site) depois de começar a usar uma ferramenta de inteligência artificial para optimizar o SEO (estratégias para melhorar o posicionamento de um site nas pesquisas).
  • Pelo menos 72% das organizações de verificação de dados reportam ter sofrido intimidação em 2023, dados do relatório da International Fact-Checking Network.

Frases que dão que pensar

  • “Quando dizemos que estamos a cobrir tecnologia, não quer dizer que estejamos a fazer artigos sobre novos dispositovos, é mais sobre como a tecnologia está a ter um impacto na vida diária das pessoas” — Shristi Jaswal, bolseiro do AI Accountability do Centro Pulitzer.
  • “Queremos saber se algo foi criado por humanos, mas também se foi editado ou redigido. É importante sublinhar que, a longo prazo, este é um mundo não-binário. Não podemos dizer: ‘Isto é real e isto é artificial’. Vamos viver num mundo em que os conteúdos são combinados” — Sam Gregory, WITNESS.
  • “A regulação [da inteligência artificial] não está só nas leis, está também nas políticas internas [das redacções] e nas ferramentas com que escolhem trabalhar. As redacções têm de saber distinguir os modelos que foram treinados de forma responsável, e não simplesmente adoptar os que dão mais que falar” — Natali Helberger, especialista em IA.
  • “Fui para muitas guerras em grande parte por causa dos ‘demónios’ que tenho dentro de mim. […] O número de pessoas que conheci em contexto de guerra que vêm de infâncias disfuncionais é impressionante. […] [A cobertura de guerras] é a única dependência pela qual as pessoas te admiram” — Fergan Keane, correspondente de guerra da BBC que se demitiu depois de um diagnóstico de perturbação de stress pós-traumático.
  • “Todos os autocratas contemporâneos prometem levar os seus países para um passado imaginário. Preservar um registo rigoroso e pormenorizado do passado é um dos verdadeiros actos de resistência” — jornalista russa Masha Gessen.
  • “Jornalismo climático é muitas coisas diferentes. Como repórter local a trabalhar na cidade de Nova Iorque, para mim jornalismo climático é [fazer cobertura] sobre o lixo, as inundações dos parques, transportes e o calor no Verão.” — Juan Manuel Benítez, Professor de Jornalismo Local na Columbia University.
  • “Não vejo aquilo que faço [publicações no TikTok] como sendo muito diferente do que outros jornalistas faziam no Twitter […]. Mesmo se não estás a partilhar uma opinião, estás a ajudar as pessoas a entender o mundo. Para mim, isso é uma forma de influência. E estou a fazê-lo sem comprometer os padrões de imparcialidade da minha organização” — Jornalista espanhol Enrique Anarte, responsável pelo TikTok na publicação Openly, da Thomson Reuters Foundation.

O resumo do Reuters Institute inclui ainda a descrição de alguns projectos inovadores apresentados durante o festival. Muitos destes projectos recorrem à IA para criar soluções, como é o caso da NPO, emissora pública neerlandesa, que usou a clonagem da voz de um jornalista já morto para narrar entradas do diário do assassino do presidente norte-americano John F. Kennedy, cuja mãe o próprio jornalista tinha entrevistado.

(Créditos da fotografia: Andrea di Valvasone, retirada da fotogaleria da site da organização)