O Iberifier, Observatório Ibérico de Média Digitais, publicou um estudo sobre as dinâmicas de fact-checking (verificação de factos) em contexto jornalístico nos últimos anos na Península Ibérica, anunciou o Observatório da Comunicação (OberCom).

O relatório identifica os principais factores de mudança nas práticas jornalísticas associadas à verificação de factos.

“Ao longo de três anos de trabalho, vimos em directo as mutações das dinâmicas desinformativas e da própria relação dos actores sociais e do público com os media e com os conteúdos desinformativos”, lê-se no texto de apresentação.

O crescimento do fact-checking surge profundamente associado à facilidade de transmissão de mensagens falsas em larga escala através das plataformas digitais.

De acordo com o estudo, “um dos maiores desafios enfrentados pelo ecossistema mediático é o crescimento desregulado das plataformas de redes sociais e a sua contribuição para uma ecologia mediática tóxica”.

No seguimento dos esforços para combater a desinformação no contexto jornalístico,  foram sendo criados diversos “organismos dedicados à verificação, cujos modelos variam em termos de organização, conteúdo e fórmulas de verificação”.

Estas são as actividades e tendências que caracterizam o fact-checking em Portugal e Espanha nos últimos anos:

  • Criação de plataformas de fact-checking, entre 2018 e 2019
    Estes espaços estão associados a dois tipos de iniciativa: fundações ou associações sem fins lucrativos, e empresas de comunicação social e de produção audiovisual.
  • Iniciativas contra a desinformação nos meios de comunicação social
    O estudo dá como exemplo três entidades/iniciativas em Portugal: o Observador, o Público e o Polígrafo, dedicado exclusivamente à verificação de informação. Quanto a Espanha, são mencionados dois exemplos: Maldita-es e Newtral.
  • Dinâmicas de fact-checking são variadas
    “A origem do conteúdo verificado é diversa, embora provenha principalmente de declarações de figuras importantes (especialmente políticos), conversas em redes sociais abertas, chats e canais de mensagens”, lê-se no relatório. Para decidir se um conteúdo deve ser verificado pesam vários factores, sendo os mais relevantes a “viralidade” e os potenciais danos da mensagem. Normalmente, o resultado da verificação dos dados é um veredicto, mas antes disso os jornalistas também tendem a explicar e contextualizar a informação.
  • Alianças estratégicas para unir forças
    Têm surgido redes de ligação entre fact-checkers, tais como a International Fact-Checking Network, do Poynter Institute. A presença dos órgãos de comunicação nestes espaços facilita a participação em iniciativas de alcance global, como a #CoronaVirusFactsAlliance e a #UkraineFacts, e em conferências, como a Global Fact Summit. “As alianças juntam verificadores de factos e empresas de tecnologia para aumentar a actividade de verificação nas plataformas”.
  • Parcerias entre média e academia
    Esta aproximação contribui para o desenvolvimento do fact-checking e para a transferências de conhecimentos entre sectores — incluindo, também, as organizações sociais. Muitas vezes são criados projectos não só em períodos excepcionais, como a pandemia ou as eleições, mas também em momentos “mais estáveis, como forma de reforçar a confiança”.
  • Transparência e robustez metodológica
    “A meticulosidade metodológica, garante da veracidade, assenta numa abordagem quase científica e na aplicação de mecanismos de auto-regulação”. As entidades de fact-checking frequentemente partilham “as fontes e os recursos utilizados”, “os mecanismos de auditoria interna”, as correcções e a política de rectificação.
  • Literacia mediática é essencial
    “Os meédia e os verificadores de factos recebem formação em competências e aptidões para poderem operar num mundo de crescentes distúrbios de informação”. Também a formação dos cidadãos é fundamental, porque a leitura crítica prévia é preferível a uma actividade de verificação que apenas reage aos conteúdos que já estão a circular.
  • Desenvolvimento de comunidades com o próprio público
    O público pode ser quem identifica os casos que precisam de ser verificados, estimulando o diálogo com os jornalistas nas redacções. “Nalguns casos, quando a própria comunidade é consultada pelos verificadores de factos, estes possibilitam a criação de uma base de dados de peritos que participam na verificação”.
  • Uso crescente da tecnologia pelos fact-checkers
    Entre as ferramentas usadas estão: a pesquisa inversa de imagens e vídeos, a geolocalização, a análise forense visual e a detecção de texto em imagens. “Algumas organizações desenvolvem as suas próprias soluções para automatizar as suas bases de dados, melhorar a classificação ou enriquecer os registos de forma mais automática”.
  • O papel indispensável (mas também o desafio) da inteligência artificial
    Por um lado, cada vez há mais conteúdos gerados por IA (e cada vez mais sofisticados), o que representa uma ameaça à confiança na informação partilhada. Por outro lado, a IA permite “uma detecção mais rápida e precoce de conteúdos”, a identificação “dos seus padrões e das marcas de viralidade”, e a optimização do processo de verificação.

(Créditos da imagem: vectorjuice no Freepik)