Sobre as relações preconcebidas do jornalismo e dos leitores
As mudanças geradas pelas novas tecnologias digitais vieram desconstruir diversas ideias preconcebidas sobre os “media”, o que afectou a relação entre as publicações jornalísticas e os seus consumidores.
Quem o diz é Carlos Castilho que, ao basear-se nas análises do livro “The Journalism Manifesto”, sinalizou as principais ilusões partilhadas sobre a imprensa contemporânea, que foram “desmascaradas” através da internet, afectando a relação entre as publicações jornalísticas e os seus consumidores.
Num artigo publicado no “Observatório da Imprensa”, com o qual o CPI mantém um acordo de parceria, Castilho começou por explicar que o “Journalism Manifesto” resulta do trabalho dos investigadores Barbie Zelizer , Pablo Boczkowski e Chris W. Anderson, que quiseram abordar a alteração das relações entre os “media” e as estruturas sociais vigentes.
Assim, estes autores chegaram à conclusão de que a internet veio desconstruir, em primeiro lugar, a ideia de que as empresas jornalísticas são "unidades institucionais".
Isto porque, explicou Castilho, com o aparecimento das grandes empresas tecnológicas, ficou claro que as publicações mediáticas não dependem, apenas, do trabalho que desenvolvem, mas, igualmente, das relações que estabelecem com plataformas digitais.
Desta forma, tornou-se, também, evidente que a maioria dos títulos não beneficia de autonomia editorial e económica, uma vez que tem de ir ao encontro dos interesses de investidores, de forma a garantir a sua sustentabilidade financeira, numa época em que a publicidade migrou para os motores de pesquisa e redes sociais.
Janeiro 22
Isto relaciona-se, igualmente, com a ilusão de centralidade. Ou seja, com a chegada da era digital, percebeu-se que os “media” já não têm um papel preponderante na consolidação do processo democrático, uma vez que alteram a sua linha editorial consoante interesses políticos e financeiros.
Tudo isto somado, levou os autores do “Journalism Manifesto” a questionarem a permanência da instituição imprensa no seu formato actual.
Barbie, Boczkowski e Anderson acreditam, então, que o recurso a ilusões reflecte o medo de enfrentar a realidade, e pode levar a imprensa a viver um espaço de “deslocamento institucional”.
Até porque, concluiu Castilho, as aparências de unidade, permanência, centralidade e autonomia distanciam os grandes títulos jornalísticos, não apenas das audiências e do público, mas, principalmente, "da realidade prática dos negócios nesta economia líquida que a era digital criou”.
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